Os 80 anos do primeiro romance de Clarice Lispector

Os 80 anos do primeiro romance de Clarice Lispector

“Por que contar fatos e detalhes/ se nenhum a dominava afinal?/ E se ela era apenas a vida/ que corria em seu corpo/ sem cessar?” (PCS, p. 69)

Cátia Castilho Simon *

Clarice Lispector, autora de "Perto do Coração Selvagem", em ensaio fotográfico de 1969

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“Perto do Coração Selvagem” (PCS) completa 80 anos em dezembro deste ano que finda. Foi o livro de estreia de Clarice Lispector, no mês do seu aniversário. Considerado o melhor romance de 1943, recebeu o Prêmio Graça Aranha no ano seguinte. Publicado pela editora A Noite, mesma empresa do jornal que a escritora trabalhava, mediante a renúncia aos direitos autorais.

No final de 1953 foi traduzido para o francês, ampliando a nacionalidade de seu público leitor. Era apenas o início desse processo. Após muitas idas e vindas no decorrer de 1954 com a editora e tradutora, encaminhou diversas alterações no texto traduzido. Preferiu não verificar se as mesmas haviam sido corrigidas, temia o pior. Somente em 1957 retomou o resultado da tradução que a surpreendeu positivamente. Escreveu ao editor, agradecendo à tradutora por tal resultado. A alegria não durou muito, pois no ano seguinte recebeu um comunicado de que os mil e setecentos exemplares guardados seriam incinerados por falta de espaço na editora.

A segunda edição do livro foi em 1963 quando a escritora já havia retornado ao Brasil após viver 16 anos na Europa e EUA. No Rio de Janeiro, em 1965, foi encenada a peça Perto do Coração Selvagem com textos adaptados também de “A paixão segundo GH” e de “A Legião Estrangeira”. A direção e adaptação foi de Fauzi Arap, e no elenco estavam José Wilker, Glauce Rocha, Dirce Migliaccio, além do diretor da peça. Em Cadernos de Literatura Brasileira - Clarice Lispector, do Instituto Moreira Sales, encontramos a fotografia de um encontro da escritora com os atores. Clarice e os demais acompanhavam com atenção o diretor que gesticulava; Glauce Rocha observava a escritora. A presença da autora avalizava o projeto de trabalho, reafirmando a potência da escrita também levada ao palco.

O livro transita na contramão da estética real-naturalista oitocentista estendida ao romance de 30, no Brasil. Há um ganho extraordinário apontado posteriormente nesse quesito por Lucia Helena em “Nem musa, nem medusa”, ao expressar um “realismo às avessas, (...) vincado às impressões do real”. 

A escritora trabalha “as contradições inerentes ao fato de ser e não ser uma escritora ‘realista’, uma vez que não registra fatos, mas narra impressões” (p. 38) Algumas críticas, no calor da hora, não lhe foram favoráveis. A que mais lhe incomodou e está referida em carta para as irmãs foi a de Álvaro Lins sob o título A experiência incompleta. O crítico filia a escrita da jovem estreante a de James Joyce e a de Virgínia Woolf. “Só faltou me chamar de representante comercial dos ditos escritores” – escreve em franco desabafo. Ainda não os conhecia em profundidade. 

A epígrafe de James Joyce na abertura de PCS foi uma sugestão do escritor Lúcio Cardoso. Não houve consenso na crítica, mas Antonio Candido já encontrava sinais da literatura de excelência que se confirmaria na obra de Clarice Lispector interrompida com a morte precoce aos 57 anos, em 1977. Disse o crítico, em “O raiar de Clarice Lispector”: “tive verdadeiro choque ao ler o romance PCS, escritora totalmente desconhecida até aqui para mim. (...) Tentativa impressionante de levar nossa língua canhestra a domínios pouco explorados (…)capaz de nos fazer penetrar em alguns dos labirintos mais retorcidos da mente.” 

Em recente live (1) com uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector, professora Nádia Gotlib, ela comentou sobre essa capacidade ímpar que a autora tinha de decifrar os caminhos internos de funcionamento do ser humano. A produção da escritora resultou em 21 livros publicados em vida, entre romances, contos, entrevistas, crônicas, livros infantis. “Um sopro de vida” estava em elaboração e saiu no ano seguinte à sua morte, 1978.

Alfredo Bosi em “História Concisa da Literatura Brasileira” escreveu: “A experiência estética de Guimarães Rosa e Clarice L. entendem renovar por dentro o ato de escrever ficção”. É assim que o percurso clariceano reinventa a prosa brasileira sob a aura dos precursores modernistas daqui e de além mar. PCS foi apresentado ao amigo e colega de trabalho Lúcio Cardoso, como um conjunto de escritos. Com a sensibilidade acurada, ele viu que tinha ali uma unidade de romance, convencendo a escritora a reconsiderar. 

Como Machado de Assis com o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas, Clarice Lispector levantou suspeitas no que se refere à concepção de romance em suas respectivas épocas. O livro está dividido em duas partes. A primeira parte, na versão final inicia com o capítulo O pai, mas originalmente, quando não havia título iniciava com “O dia de Joana”, que viria a ser o segundo. A alteração está referida em “Clarice Fotobiografia”, de Nádia Gotlib. A pesquisadora também nos revela que um exemplar do livro chegou a Mário de Andrade cuja apreciação entusiasmada foi enviada em carta para o endereço provisório da escritora, em Belém. O escritor Fernando Sabino, amigo de Clarice, tentou reaver a correspondência para sempre extraviada.

Na primeira parte do livro acompanhamos a infância de Joana, inicialmente órfã de mãe. A morte do pai a leva a morar com a tia, depois no orfanato até encontrar o futuro marido, Otávio. Tal constatação não se dá em uma linha temporal retilínea comum; aos saltos, vamos indo e vindo nessa construção. A escritora rompe com a concepção de linearidade e progresso, nos moldes de Walter Benjamin, propõe uma abordagem a contrapelo.

Finalizando esta parte, a protagonista indaga-se e é definida pelo narrador ou pela “mulher da voz” identificada no texto sob esse nome, em um continuum. “Nunca terei pois uma diretriz, pensava meses depois de casada. Resvalo de uma verdade à outra, sempre esquecida da primeira, sempre insatisfeita. Sua vida era formada de “Pequenas Vidas Incompletas.”(p. 93)

A segunda parte inicia com o capítulo “O casamento”. Nele há os percalços da relação e , mais do que isso, as indagações de Joana sobre si mesma. O sentido do que vive segue em espiralado movimento temporal. Afinal, Joana deixara de ser o “ovinho”, na percepção do pai para ser “a víbora”, segundo sentenciara a tia. Otávio, ao final, joga-lhe essa verdade plantada. Sim, ele, o marido que transitava saltitante por um triângulo amoroso com a ex-noiva, Lídia, é descoberto pela esposa. E mais, ao conferir a situação, Joana descobre que o casal aguarda o nascimento de um filho. “Eles três formavam um casal e a quem contar isso?” (164) E isso não é tudo, muito menos uma relação de causa e efeito, pois a esposa também se relaciona com outro homem. No entanto, ele é fortuito e desconhecido.

“Joana nem sabia o nome dele... Não desejara sabê-lo, dissera-lhe; quero te conhecer por outras fontes, seguir para a tua alma por outros caminhos; nada desejo da tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais”. (p. 179)

Lélia Almeida considera PCS um caso de bildungsroman feminista. Para ela, a concepção do romance de formação é virada ao avesso no que diz respeito ao universo feminino onde quase sempre as mulheres se davam mal ao final das narrativas. Aqui, Joana, a protagonista, abandona todo o tipo de cerceamento à liberdade e segue em frente no caminho em que ainda não sabe qual será, uma vez que “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome” (p. 64) – revela-nos.
Antes de PCS, Clarice Lispector já havia publicado contos em jornais com protagonistas femininas. No entanto, Joana pode ser considerada a primeira protagonista “oficial” em meio a uma série de personagens femininas em suas obras. Os vieses das personagens revelam-se diversos, “retidas num espaço de ruminação interior, a remoer uma vida vazia, nas estreitas dimensões de um quarto ou de uma casa”, (Lucia Helena, p. 41). “Joana ofegava, o rosto branco. Passou os olhos escurecidos pela salinha, perseguida. As paredes eram brancas, ela estava presa, presa!” (p. 33) Tais personagens, assim como Joana, emergem questionando diretamente ou simbolicamente o mundo patriarcal - “É que a visão consistia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas” (p.40)
Ao publicar seu primeiro romance aos 23 anos, a jovem imigrante de origem russa e nacionalidade brasileira, segundo ela mesma proferia, conjugou a sensibilidade criativa na contramão do mundo esboçado para ser reiterado. “E Joana também podia pensar e sentir em vários caminhos diversos, simultaneamente.” (p. 43) Nem mesmo o empenho do admirado professor impediu a percepção de uma realidade escamoteada. Procura-o, confiando que encontrará a sabedoria necessária para entender quem ela é. Responde-lhe:


“Sim, que estava compreendendo as palavras, tudo o que elas continham. Mas apesar de tudo a sensação de que elas possuíam uma porta falsa, disfarçada, por onde se ia encontrar o verdadeiro sentido.”( p. 50)

Nesse início de produção literária encontramos o plasma no qual engendraria o conjunto da sua instigante obra. Não fez concessões, conforme afirmara em entrevista. Obedeceu-se.
Diria que tal trajetória de desvios, de rotas tortuosas, mostra-se como um lusco-fusco constante, na perspectiva benjaminiana de constelações em que “cada ideia ilumina a todas as outras e é por elas iluminadas, bem como obscurecidas”. 

Por esses desdobramentos a escrita de Clarice Lispector tem iluminado o caminho e as melhores obras de escritoras e escritores contemporâneos. PCS merece ser lido e reverenciado pela potência literária, pelas rupturas e vislumbres que provoca também em leitores. “Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim” (p. 62), nos confidencia Joana.

(1) “Digressões Clariceanas” é produzido e apresentado por mim e Liana Timm mensalmente. As lives entrevistam pessoas de relevância à cultura. Iniciadas em 2021, são veiculadas no Facebook e Youtube, na página da Território das Artes. 

 

Referências Bibliográficas
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. SP: Círculo do Livro, 1987.
ALMEIDA, Lélia. Clarice Lispector e “Perto do Coração Selvagem” – um caso de
bildungsroman feminista. Revista Signo, v 16 n 23 (1991) : Faculdades Integradas de
Santa Cruz
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
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_____. Charles Baudelaire - Um lírico no auge do capitalismo. 2ª ed. São Paulo:
Brasiliense, 1991. (Obras escolhidas; v. 3)
BOSI, Alfredo. Clarice Lispector. In: ______. História concisa da literatura brasileira.
32ª ed. São Paulo: Cultrix, 1994.
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA – CLARICE LISPECTOR - Instituto
Moreira Salles, 2004.
CANDIDO, Antonio. No raiar de Clarice Lispector. In:______. Vários escritos. São
Paulo: Duas Cidades, 1970.
GOTLIB, Nádia Batella. Clarice – uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.
______. Clarice fotobiografia. SP: EDUSP, 2008.
HELENA, Lúcia. Nem musa, nem medusa – Itinerários da escrita de Clarice
Lispector. Niterói: EDUFF, 1997
LINS, Álvaro. A experiência incompleta: Clarisse Lispector. In: Os mortos de
sobrecasaca: ensaios e estudos (1940-1960). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1963.
SIMON, Cátia Castilho. Labirintos da realidade – diálogo de Clarice Lispector com
Machado de Assis. Porto Alegre: Redes Editora, 2013.
VARIN, Claire. Línguas de Fogo; tradução de Lúcia Peixoto Cherem. SP: Lumiar,
2002.


* Doutora em Estudos da Literatura Brasileira, Portuguesa e Luso-africanas/Ufrgs. Escritora. Integra o Mulherio das Letras/RS, é vice-presidente cultural da Associação Gaúcha dos Escritores (Ages) - gestão 2023/2024.


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