Por que os brasileiros torcem contra sua própria Seleção?

Por que os brasileiros torcem contra sua própria Seleção?

"O problema talvez não seja a Seleção e sim a sociedade brasileira, que está doente e decidiu ignorar valores fundamentais em nome de dogmas e fanatismos."

Nando Gross

Parte da torcida brasileira não torceu para a Seleção na decisão da Copa América

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O comportamento de parte da torcida brasileira na decisão da Copa América entre Brasil e Argentina é algo para ser refletido com muita tranquilidade para que possamos entender o que está acontecendo e resgatar a boa relação entre a torcida e a Seleção nacional. Houve uma espécie de comemoração pela derrota do Brasil e a consequente vitória da Argentina. Não se trata de julgar ou fiscalizar quem torceu para quem, apenas tentar entender por que a nossa equipe está perdendo esta identificação com o povo brasileiro?

O motivo seria a falta de visão social e política dos atletas, além do descaso com a situação nacional. Na verdade, em nenhum momento da história tivemos qualquer tipo de posicionamento político da nossa Seleção que fosse contrário aos interesses da CBF, antes CBD e especialmente do Governo Federal.

Em 1970, num dos momentos mais violentos do regime militar, o então ditador general Médici usou a imagem da Seleção o tempo todo, sendo fotografado ao lado de jogadores. O capitão do Tri, Carlos Alberto, afirmou certa vez no Programa Roda Viva: “Eu não queria saber se tinha ditadura dos militares que estavam no poder. A gente estava jogando futebol profissional, nem se preocupava com essa coisa”.

Carlos Alberto foi o responsável por entregar a taça a Médici, na recepção aos campeões mundiais, em Brasília, onde durante o almoço, no Palácio da Alvorada, cada membro da delegação ganhou de presente um prêmio em dinheiro do ditador. Poucos dias depois, os jogadores foram presenteados pelo então prefeito indicado pela ditadura da cidade de São Paulo, Paulo Maluf, com 25 Fuscas comprados com dinheiro público.

Em 1970, a comissão técnica era toda formada por militares, liderada pelo preparador Cláudio Coutinho, capitão do Exército que, em 1978, acabou se tornando técnico da Seleção. O chefe da delegação era o brigadeiro reformado Jerônimo Bastos e o major Roberto Câmara Lima Ypiranga de Guaranys era o encarregado da segurança. Guaranys foi apontado pela Comissão Nacional da Verdade como um dos torturadores do regime militar. Era homem de confiança de Médici e sua função era reportar diretamente ao ditador o dia a dia da Seleção.

Lembro dessa história para tentar entender o que está acontecendo agora com os nossos jogadores que não contam com o carinho do torcedor. Fosse só política, a Seleção masculina de vôlei fez campanha para Bolsonaro com o uniforme da seleção, Ronaldo Nazário é amado pelos torcedores e fez campanha para Aécio Neves, que sumiu da vida política por corrupção. Será este mesmo o motivo, que teria faltado um posicionamento mais forte dos atletas durante a Copa América?

Esta Seleção fez um manifesto contrário à realização de um evento promovido por Conmebol e CBF e com o apoio pessoal do presidente da República. É pouco? Pode ser, mas nunca tinha acontecido nada igual no Brasil.

O momento é assim: sujeito não gosta do Neymar porque ele é totalmente alienado politicamente e não sabe nada dos problemas do Brasil, mas este mesmo sujeito idolatra o Ronaldinho Gaúcho. Então qual o critério neste caso? Um pode somente ser craque e o outro além disso tem de ser “ativista”?

O problema talvez não seja a Seleção e sim a sociedade brasileira, que está doente e decidiu ignorar valores fundamentais em nome de dogmas e fanatismos. Adotamos a intransigência e o revanchismo como normas de conduta e terceirizamos responsabilidades por aquilo que deixamos de fazer. Cobramos os outros pela nossa própria incapacidade.

a discussão absurda sobre tomar ou não vacina, sobre o uso ou não de máscaras, não são os jogadores os protagonistas desse debate, somos todos nós, a sociedade em geral. Qualquer assunto se torna dogmático e cai no fanatismo de seguidores deste ou daquele lado. A Seleção também é vítima disso. 


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