Texto inédito de Sergio Faraco

Texto inédito de Sergio Faraco

Publicado originalmente no Caderno de Sábado, a coluna reproduz o texto inédito do escritor gaúcho que estará no seu próximo livro "As Noivas Fantasmas & Outros Casos" (L&PM)

Texto sobre o assassinato dos Romanov integra o livro "As Noivas Fantasmas & Outros Casos" a ser lançado pela L&PM

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OS ROMANOV: A LIMPEZA DA CHAMINÉ
 
Sergio Faraco*
 
Um dos crimes mais selvagens da história moderna foi cometido na Rússia em 1918. Na noite de 16 para 17 de julho, em Ecaterimburgo, na chamada Casa Ipátiev 1, foram executados o czar abdicado Nicolau II, a esposa, as quatro filhas, o filho adolescente, o médico da família, a aia da czarina, o cozinheiro e um criado, obra do Soviete Regional dos Urais, cumprindo decisão de Lênin, também do Presidente Sverdlov e de outros próceres cuja aprovação foi o silêncio. Trotski não estava em Moscou no dia 12 de julho, quando houve a reunião no Kremlin e a sorte da família imperial foi decretada. Ao retornar, perguntou a Sverdlov onde estava o czar:
– Acabou-se. Foi fuzilado.
– E a família?
– A família está com ele.
– Todos eles?
– Todos eles.
– Por quê? Quem decidiu isto?
– Decidimos aqui. Ilyitch [Lênin] considerou que não podíamos deixá-los como uma bandeira viva, sobretudo nas difíceis circunstâncias atuais 2. 
Não houve um julgamento, como desejava Trotski e o czar merecia, para prestar contas de seus desmandos, mas a correspondência sigilosa entre Ecaterimburgo e Moscou costumava empregar o termo: julgamento queria dizer execução no planejamento do crime. Às 17h30min horas do dia 16, o soviete uraliano enviou a Lênin e Sverdlov o seguinte telegrama: “Informo Moscou por razões militares julgamento combinado não pode ser adiado (...). Se for de outra opinião, avise imediatamente”. O assassinato já estava decidido e, de Moscou, não chegou aviso algum.
Por volta da meia-noite, estacionou junto à casa, na Rua Voznessenki, o caminhão Fiat que transportaria os cadáveres. O motorista apresentou-se como o limpador de chaminés – era a senha – e em seguida a família e servidores foram despertados e conduzidos ao porão pelo agente Yakov Yurovski, um ex-relojoeiro e revendedor de material fotográfico que agora era o chefe da polícia secreta, a Cheka 3,  em Ecaterimburgo. Yurovski explicou que, com a aproximação de tropas contrarrevolucionárias e para sua própria segurança, eles precisavam se transferir para dependência mais protegida. Só era verdade a iminência de invasão pela Legião Tcheca, uma força de 45.000 homens constituída de ex-prisioneiros tcheco-eslovacos do Império Austro-Húngaro, associada a grupos de combatentes antibolcheviques 4. 
Yurovski diria mais tarde que não notou nenhum sinal de hesitação ou suspeita: “Não houve lágrimas ou choros, nem perguntas”.
Nicolau trouxe no colo o filho Alexei, que era hemofílico, machucara-se em acidente doméstico e não conseguia caminhar. A menina Anastácia carregava seu cãozinho. Toda a mobília do porão fora retirada. A czarina Alexandra, que padecia de dores ciáticas, reclamou: “Nem mesmo uma cadeira? Não temos sequer o direito de sentar?” Yurovski mandou trazer duas cadeiras, para ela e para o menino. Um dos guardas da casa, sabedor do que estava por acontecer, zombou: “O herdeiro precisa de uma cadeira, talvez ele prefira morrer sentado”.
O motorista do Fiat recebeu ordem de entrar no pátio de marcha a ré e deixar o motor ligado e acelerado para abafar o som dos tiros. Cada um dos matadores, à espera em outro cômodo, recebera de Yurovski a indicação de sua vítima, e todos estavam armados com revólveres Colt e pistolas Nagant, Browning e Mauser, mas o grupo tivera de ser reformulado porque dois letões se negaram a atirar nas moças. Eram onze, além de Yurovski. Oito foram identificados mais tarde: Grigory Nikulin, subchefe local da Cheka, Pyotr Ermakov, comissário bolchevique, Pavel Medvedev, soldador de uma fábrica local e comandante da guarda externa da casa, Mikhail Kudrin, mecânico, assassino da Cheka, Alexei Kabanov, guarda da Casa Ipátiev e ex-soldado da Guarda Imperial, Victor Netrebin, novato da Cheka com apenas 17 anos, Stepan Vaganov, comandante de metralhadoras da guarda interna, e Jan Tselms, soldado letão.
Com o ex-czar à frente e os demais em duas filas contra a parede, supostamente para ser feita uma fotografia, Yurovski chamou seu mal-arranjado pelotão e leu um documento do soviete determinando que todos fossem fuzilados. Nicolau ainda pôde exclamar “O quê? O quê?”, antes da primeira rajada de tiros, e foi o primeiro a morrer, baleado no peito e na cabeça por Yurovski. O comissário Ermakov, bêbado contumaz, ex-detento, psicopata que serrara a cabeça de um homem durante um assalto a banco, desfechou um tiro na testa da czarina Alexandra enquanto ela se benzia e outro na coxa da menina Maria, que tentava alcançar a porta. Todos atiravam contra todos e a fuzilaria enfumaçou de tal modo a peça que os atiradores, transtornados, poderiam alvejar uns aos outros. Yurovski ordenou que o pelotão saísse por um momento, enquanto se ouviam gritos, choros, gemidos de quem ainda não tivera a bem-aventurança de morrer.
Um dos matadores, Kabanov, tinha sido mandado ao pátio para verificar se os estampidos excediam o ruído do motor do Fiat, e como de fato era o caso, foi resolvido que todos passariam a usar, de preferência, as coronhas dos fuzis e as baionetas. Quando retornaram ao porão, constataram que apenas Nicolau, Alexandra e dois criados estavam mortos. Yurovski viu o médico tentando levantar-se e atirou na cabeça dele. Encontraram Alexei a gemer – Nicolau o protegera – e Yurovski disparou sua Mauser, mas o menino, no chão, movia-se, agarrado à manga da camisa do pai. Yurovski ainda se admirava da resistência dele quando Nikulin se aproximou e descarregou sua Browing. Não bastou, Alexei ainda se movia, mesmo depois de Ermakov tê-lo atacado com a baioneta. Yurovski, por fim, sacou sua segunda arma, um Colt, e o matou. Maria, a mais bela das filhas do czar, abraçara-se à irmã menor, Anastácia. Ambas testemunharam o assassinato das irmãs mais velhas, também abraçadas, após sobreviverem à baioneta de Ermakov no peito e nas costas. Tatiana foi morta por Yurovski com um disparo atrás da cabeça, fazendo com que Olga recebesse no rosto um jato de sangue e massa encefálica. Ermakov derrubou Olga com um pontapé e a baleou na boca. Voltando-se para Maria e Anastácia, acutilou-as. Como não morreram e ainda gritavam por socorro, usou outra pistola para disparar em suas cabeças. Em transe histérico, procurou novamente os inertes Nicolau e Alexandra e passou a lhes golpear com tanta fúria que, quebrando ossos, a baioneta atravessou o assoalho. Anastácia ainda vivia, mas eles não perceberam e a deitaram num lençol para levá-la ao caminhão. De repente ela sentou-se e, cobrindo o rosto com as mãos, começou a gritar. Recebeu uma coronhada na cabeça e foi golpeada repetidamente pela baioneta de Ermakov até silenciar. Sobrou a criada de Alexandra, a correr de um lado para outro e a gritar que Deus a salvara, mas sem demora a alcançaram.
O “procedimento”, segundo Yurovski, durou 20 minutos.
“Todos estavam com perfurações de tiros em várias partes e os rostos cobertos de sangue. As roupas também, encharcadas de sangue”, contou Pavel Medvedev, um dos onze, que foi encarregado de comandar a limpeza do porão. Os guardas tinham dificuldade de mover-se no piso escorregadio, tomado de sangrentos restos humanos misturados com fezes e urina. Alguns vomitaram e fugiram. Outros se precipitaram sobre os mortos para lhes roubar as joias. Outros ainda estriparam o cãozinho de Anastácia, Jimmy, e também o de Tatiana, Órtino, que descera ao porão atrás da dona.
Concluíra-se a limpeza da chaminé.
Faltava limpar as provas do crime. Com a carga de cadáveres, 150 galões de gasolina e 180 kg de ácido sulfúrico no caminhão, Yurovski dirigiu-se a um lugar previamente escolhido, uma mina abandonada a 20 km de Ecaterimburgo, perto da aldeia de Koptyak. Trabalharam três dias com machados e serrotes para desmembrar e fatiar os corpos, antes de incinerá-los e lançá-los na mina, sob camadas do produto que deveria corroê-los. Dois dias depois, voltou Yurovski para trocar aqueles tassalhos de lugar. Tinham achado outro menos visível.
Ainda havia o que limpar?
A autoria, decerto, e para tanto, as potestades bolcheviques mandaram prender 28 pessoas que se opunham à revolução, acusando-as dos onze assassinatos, cujo propósito era desqualificar o regime. Cinco dos presos foram executados. Para ocultar um crime bárbaro, praticaram outro. Entrementes, seguia a carnificina perpetrada contra dezenas de outros membros da família Romanov, degeneração cuja “obra-mestra” foi a tortura a que submeteram uma tia de Nicolau, a freira Ella, uma criança e cinco parentes, lançados num profundo poço para morrer de inanição.
Em 1923, a imprensa soviética distribuiu fotografias da Casa Ipátiev legendadas com um escárnio: “O último palácio do czar”. Pouco a pouco, porém, a casa se tornou um lugar de peregrinação para russos que desejavam homenagear a família trucidada. Com a aproximação do 60º aniversário da execução e temendo a recrudescência das censuras internacionais, o Politburo, em julho de 1977, encarregou Bóris Yeltsin de sua demolição. Em 1990, ele escreveu em suas memórias: “Mais cedo ou mais tarde, todos nós nos envergonharemos deste exemplo de barbárie”5. 
* Escritor
 
1.  Assim chamada por pertencer, desde 1908, ao metalurgista Nikolai Nikolaievich Ipátiev, que a adquirira por 6.000 rublos. A família morava no piso térreo e os escritórios do negócio funcionavam nas dependências subterrâneas. A casa tinha eletricidade, telefone e uma área de 560 metros quadrados. Quando os bolcheviques decidiram que o czar e a família ficariam recolhidos ali, deram a Ipátiev dois dias para que procedesse à desocupação.
2. MONTEFIORE, 791; SEBESTYEN, 402-3; MASSIE, 534.
 3. Criada por Lênin em 20 de dezembro de 1917, com o nome eufêmico de Comissão Extraordinária.
4.  A Legião Tcheca invadiu Ecaterimburgo oito dias após a morte do czar.
5.  Em 2008, a Suprema Corte da Rússia decidiu que Nicolau e seus familiares foram vítimas de repressão política e os considerou reabilitados.
 
CONSULTAS

FERRO, Marc. A verdade sobre a tragédia dos Romanov. Rio de Janeiro: Record, 2017. 167p.

MARIE, Jean-Jacques. História da guerra civil russa: 1917-1922. São Paulo: Editora Contexto, 2017. 271p.

MASSIE, Robert K. Nicolau e Alexandra. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. 607p.

MASSIE, Robert K. Os Romanov: o fim da dinastia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. 269p.

MONTEFIORE, Simon Sebag. Os Romanov: 1613-1918. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 906p.

RAPPAPORT, Helen. Os últimos dias dos Romanov. Rio de Janeiro: Record, 2011. 335p.

REPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016. 523p.

SEBESTYEN, Victor. Lênin: um retrato íntimo. Rio de Janeiro: Globo, 2018. 568p.

SERVICE, Robert. O último tsar. Rio de Janeiro: Difel, 2018. 461p.

 

 
 

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