O embargo e a Internet

O embargo e a Internet

'Hay que endurecerse, pero sin perder la conexión'

Jurandir Soares

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O presidente Joe Biden, ao assumir o governo, manifestou sua intenção de aliviar as sanções que os EUA impõem a Cuba. Nesta quinta-feira, porém, ele tomou decisão contrária. Impôs novas sanções. Não propriamente ao país, mas a alguns integrantes do governo, os quais ficam impedidos de viajar aos EUA e terão seus bens em território americano congelados. Trata-se de medidas muito mais simbólicas do que práticas. Mas Biden tem a intenção de ampliá-las se a repressão aos protestos em Cuba continuar.

O embargo imposto pelos EUA a Cuba tem sido o grande fator de queixas dos dirigentes cubanos, que o apontam como a causa da ruína da ilha. Pois bem, em que consiste este embargo, que foi estabelecido por John Kennedy, em 1962, depois que o regime comunista expropriou propriedades de cidadãos americanos em Cuba para fins de reforma agrária. Kennedy proibiu todas as importações de produtos de origem cubana, assim como aquelas feitas por meio do país caribenho. Na década de 1990, outras duas leis se somaram à lista. Conhecidas como Torricelli e Helms Burton, elas estenderam a jurisdição dos tribunais americanos para fora das fronteiras territoriais: sujeitaram a sanções as subsidiárias americanas no exterior que realizem negócios com Cuba e enrijeceram a proibição de importações que contenham total ou parcialmente matérias-primas cubanas, independentemente de em qual país foram fabricadas.

Ou seja, Cuba não teve mais como negociar com os EUA, no entanto, sobraram outros 192 países para negociar. É preciso reconhecer, porém, que o embargo torna tudo mais difícil para Cuba, pois até empresas de outros países podem se recusar a negociar por temor de sofrer sanções por parte de Washington. No total são 240 medidas comerciais e financeiras que foram impostas. Agora, o que os dirigentes cubanos não percebem, ou se percebem não querem aceitar, é que o regime que eles mantêm no país se esgotou. Sobreviveu ao tempo da Guerra Fria com a ajuda da União Soviética. Teve uma sobrevida enquanto a Venezuela chavista teve gás para ajudar.

O que se constata é que estão querendo introduzir em Cuba o modelo chinês. Ou seja, abrir a economia ao mercado, porém mantendo a política sob rígido controle do Partido Comunista. O problema é que Cuba não tem o estofo econômico e produtivo da China. Tampouco a força militar dos chineses. Além disto, o país está muito próximo dos Estados Unidos e de todas as democracias que vigoram pela América Latina. Porém, o pior de tudo para o regime é que se viu obrigado a introduzir no país um sistema que o está minando por dentro: a Internet. Ao se conectar com o mundo – embora com toda a precariedade do sistema vigente no país – os cubanos começaram a perceber o que é liberdade. E, em grande número, passaram a lutar por ela. Em função disto, os EUA estão preparando uma invasão da ilha. Não militar, como a fracassada ação da Baía dos Porcos, de 1961. Mas a invasão da Internet. O governo Biden quer aliviar o sofrimento do povo cubano, mas também aumentar a pressão sobre o regime. Por isto trabalha, não só no âmbito governamental, mas em parceria com setores privados, no sentido de aumentar a oferta de Internet em Cuba. E aí prevalece aquela ilação que a jornalista Carol Pires fez com a célebre sentença de Che Guevara: “Hay que endurecerse, pero sin perder la conexión”.


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