Mercosul agoniza

Mercosul agoniza

A cada reunião do bloco se observa mais divergências do que convergências

Jurandir Soares

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Depois de 30 anos de sua criação, para ser um sólido bloco econômico regional, capaz de impulsionar os negócios entre os seus membros e de se tornar um importante player mundial, o Mercosul agoniza. A cada reunião semestral o que se observa são mais divergências do que convergências. Essas divergências que envolvem as questões econômicas se acentuaram nos últimos tempos em função das posições políticas antagônicas dos presidentes dos dois principais países do bloco: Brasil e Argentina. A reunião virtual do bloco esta semana, sob a presidência da Argentina, deu a impressão de que estão colocando a “pá de cal” no bloco.

O Uruguai já está defendendo fazer acordos em separado com outros países, o que fere o preceito básico do bloco, segundo o qual toda negociação com outros parceiros só pode ser firmada pelos quatro membros em conjunto. O entrave maior hoje tem sido a Tarifa Externa Comum (TEC), ou seja, a taxa que é cobrada para a exportação dos produtos do bloco. O Brasil quer reduzi-la, mas a Argentina não aceita. Muito menos flexibilizar as regras que regem as negociações.

Já há algum tempo que o Mercosul vem negociando um acordo de livre comércio com a União Europeia. Há cerca de um ano esse acordo esteve na iminência de ser firmado, porém dependia do mesmo tema que está em discussão agora, a TEC. O Brasil estava disposto a flexibilizar, mas a Argentina não aceitou, e o acordo fracassou. Uma das preocupações do governo argentino é com a indústria de seu país, cuja capacidade vem caindo ano a ano. E uma flexibilização poderia sepultá-la de vez.

O fato é que o Mercosul nunca teve um avanço capaz de ao menos, minimamente, aproximá-lo com o que acontece na União Europeia, onde há livre circulação de pessoas e de mercadorias. Aqui, os caminhões chegam a esperar uma semana no porto seco de Uruguaiana pela autorização da Aduana argentina. Um cidadão brasileiro, se quiser entrar na Argentina ou no Uruguai, tem que preencher um boletim de ingresso, o qual deverá devolver na saída. Se não encontrar o papelzinho na saída será considerado clandestino. Se o brasileiro vai de carro para a Argentina, tem que levar no bagageiro, entre outras coisas, dois triângulos e, vejam bem, uma mortalha. E se não tiver a “carta verde” está ferrado. Pior, estabelecemos uma placa comum para os veículos dos países do bloco, sem que tenhamos criado uma legislação de trânsito comum. Ou seja, não temos unificação de leis de trânsito, de questões sanitárias e tampouco liberdade de trânsito, tanto de veículos quanto de pessoas. Então, é de se perguntar: que processo de integração é esse?

Os presidentes, que se encontraram virtualmente nesta quarta-feira, decidiram fazer uma reunião presencial no final do ano. No entanto, com este quadro que está traçado, não será o fato de estarem frente a frente que irão mudar a situação. 

 


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