Otan testa a Rússia

Otan testa a Rússia

Incidente naval envolve um destróier britânico em águas da Crimeia

Jurandir Soares

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Uma semana depois do encontro, na Suíça, entre os presidentes dos EUA, Joe Biden, e da Rússia, Vladimir Putin, em que acertaram as bases para uma convivência pacífica, tivemos um incidente naval, com disparos, entre forças russas e da Otan. O episódio é apontado como o mais grave desde que terminou a Guerra Fria. Ocorreu na manhã da última quarta-feira em águas territoriais da Crimeia. E é por aí que começa a questão. A Crimeia pertencia à Rússia até 1954, quando o então líder soviético Nikita Khrushchev, de origem ucraniana, resolveu tornar a região uma província autônoma da Ucrânia. Com o término da União Soviética, a Ucrânia buscou seguir o caminho de outras ex-repúblicas soviéticas, tentando passar a fazer parte da União Europeia. Só que, no final de 2013, o então presidente ucraniano Viktor Yanukovich desistiu de assinar um tratado de livre-comércio com a União Europeia, preferindo estreitar relações comerciais com a Rússia. A decisão deu origem a protestos massivos, que resultaram, em fevereiro de 2014, na destituição de Yanukovich, que fugiu para a Rússia. Aproveitando o vazio de governo, as autoridades da Crimeia, região de maioria russa, propuseram um referendo interno no território, perguntando aos habitantes se eles estariam dispostos a se juntar à Rússia. O resultado, um apoio esmagador à anexação, deu a legitimidade que o governo de Vladimir Putin queria para poder anexar completamente o território. Dois dias depois do referendo, o presidente russo fez um discurso em que reconheceu a soberania do território ucraniano, dizendo que a Crimeia “sempre foi e sempre será parte da Rússia”.

O novo governo da Ucrânia, a União Europeia e a Otan, Organização do Tratado do Atlântico Norte, força criada em 1949 para fazer frente à então União Soviética, não reconheceram a anexação. Entenderam que as águas territoriais da Crimeia continuavam sendo ucranianas. A Rússia, como anexou a província, passou a considerar suas aquelas águas. E o episódio desta quarta-feira nada mais foi do que um teste feito pelo Ocidente para verificar a resistência russa. Segundo o relato russo, o destróier HMS Defender, que acompanhava o grupo de ataque liderado pelo porta-aviões HMS Queen Elizabeth em manobras no Mediterrâneo, destacou-se e foi operar no Mar Negro. Num desses movimentos, adentrou águas que os russos consideram suas em torno da Crimeia, na altura do cabo Fiolent, ao Sul de Sebastopol. Tanto Londres quanto Moscou concordam que o navio entrou 3 km nas águas que os russos consideram suas, mas os britânicos veem como ucranianas ou internacionais. O destróier foi advertido por um navio da guarda costeira russa de que deveria mudar de direção, mas, segundo Moscou, não respondeu. O navio russo então disparou tiros de advertência na direção do HMS Defender e, de forma ainda mais enfática, um jato Su-24 da Frota do Mar Negro jogou quatro bombas no caminho presumido da embarcação britânica. Em uma explicação pouco convincente, o Ministério da Defesa em Londres minimizou o incidente, afirmando que os tiros eram parte de um exercício naval russo e não foram direcionados a seu destróier. Ou seja, o teste serviu para os russos mostrarem que estão dispostos a defender com armas o que entendem que é seu. Na quinta-feira, Putin foi enfático: “Se eles forem muito longe, você não pode descartar nenhuma opção para proteger as fronteiras russas”. Assim, o teste da Otan teve uma resposta clara. Resta saber se vão parar por aí ou se haverá novos e cada vez mais perigosos desafios.

 


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