Argentina frente à sua realidade

Argentina frente à sua realidade

Parecia que estávamos numa grande capital europeia como Madri ou Paris.

Jurandir Soares

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“O populismo mergulhou 40 milhões de argentinos na pobreza”, bradou Javier Milei ao assumir a presidência da Argentina neste domingo, ao mesmo tempo em que anunciava algumas das medidas de austeridade que irá tomar, dentro da realidade do país, mancheteada pela edição desta segunda-feira do Correio do Povo: “No hay plata”. E esta “plata” ficará ainda mais escassa, pois ele promete uma redução de 20 bilhões de dólares nos gastos públicos. Ou seja, o oposto do que costumeiramente faziam os governos esquerdistas argentinos, com medidas populistas que levaram o país a este estado em que se encontra hoje, em que, além do crescente e assustador número de pobres, a inflação bate em 142% e para comprar um dólar são necessários 1.000 pesos.

O país está endividado com credores externos e internos e não há dólares no Banco Central.

Milei recordou os tempos áureos da Argentina, que chegou a ser a terceira economia do mundo, o que se deu em fins do Século XIX e início do Século XX.

Não cheguei a acompanhar esse período, mas acompanhei a Argentina dos anos 1960 e 1970, que ainda era de esplendor. Nós brasileiros quando lá chegávamos ficávamos embasbacados com a suntuosidade dos prédios, com a sofisticação das lojas e com a elegância das pessoas pelas ruas. Parecia que estávamos numa grande capital europeia como Madri ou Paris. As casas de tango, os teatros e os cinemas virando a noite, com os chamados espetáculos “trasnoche”. Tudo muito distante de nossa realidade.

Hoje, a realidade dos argentinos, pelo menos em termos de economia, é pior que a nossa. Basta comparar os números que citei anteriormente quanto à inflação, valor do dólar, etc. Milei disse que “nenhum governo recebeu uma herança pior do que a que estamos recebendo”. Disso ele era sabedor. Não cabe queixa. Cabe é ação. E uma de suas primeiras medidas foi bem ao inverso do que costumam fazer os governos esquerdistas: cortou pela metade os ministérios. De 18 passou para nove. Disse para os argentinos que terão que conviver com estagflação, ou seja, inflação com estagnação da economia.

Porém, paira sobre os argentinos a lembrança da hiperinflação que os atingiu em 1989, quando o aumento de preços no ano foi de 3.079%, Era impossível saber quanto custava um quilo de azeite ou de farinha, porque os preços mudavam da manhã para o meio-dia. Chegamos a vivenciar algo semelhante aqui, mas não tão contundente, nos anos 1980 com o governo Sarney. Na Argentina surgiu a figura de Carlos Menen, com um plano que deu-lhes a ilusão de que um peso valia o mesmo que um dólar. Foi o tempo em que vinham ao Brasil e pediam o famoso “dá-me dos”. Quando esta ilusão foi para o espaço, como foi aqui o famoso congelamento de preços do Sarney, o caos foi total. No espaço de um mês tiveram cinco presidentes. Veio o “corralito” que surrupiou as poupanças de quem tinha. As contas bancárias ficaram congeladas por 90 dias. Depois disto vieram os governos de Néstor e de Cristina Kirchner, que foram gradativamente afundando o país. Porém, o peronista Alberto Fernandez, que passou o posto para Milei, foi, proporcionalmente, quem mais afundou. Nos seus quatro anos de mandato a inflação quase triplicou, passando de 54% para 142%. A pobreza cresceu cinco pontos, superando os 40%, e o déficit primário é de 3%.

Lógico que para tirar o país da situação de penúria a que foi levado serão necessárias medidas muito duras. A começar pelos cortes de subsídios para o gás, a luz, a água, o transporte, etc. Terá que dar uma de Margaret Thatcher, com sua famosa frase: “Não há alternativa”. Isto, logicamente, vai levar às ruas os muito bem estruturados movimentos sindicais do país, comandados pela famosa CGT, Central Geral dos Trabalhadores. Organizações acostumadas a colocar governantes de joelho. Os peronistas, para se dar bem, atendiam as reivindicações, o que resultou no presente afundamento do país. O pior para Milei é que a situação do país está tão ruim que antes de um ano a um ano e meio é muito difícil que a população sinta alguma melhoria. Porém, diante do caos estabelecido, já será uma grande coisa se não vier uma hiperinflação. 

Há para o presidente o agravante de que não tem maioria nem na Câmara nem no Senado. Aliás, fatores que ajudaram a afundar o governo de Maurício Macri, que se interpôs entre os governos Kirchner. Enfim, Milei sabia o que lhe esperava. Cabe-lhe agora colocar em prática seu lema de campanha: “Liberdade Avança”. O complemento que ele usava pode ficar de lado.


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