Joice

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O episódio envolvendo a deputada federal Joice Hasselmann tem muitas perguntas e poucas respostas

Guilherme Baumhardt

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Eu ainda era estudante de jornalismo. Durante uma seleção para estágio, para uma vaga em um veículo impresso, uma das etapas do processo era uma entrevista com um jornalista da empresa. Experiente, o profissional já havia atuado em inúmeras editorias, mas demonstrava predileção por uma em especial: a de polícia. Perguntei as razões e a resposta acabou virando a manchete do texto que escrevi após o bate-papo: “Toda morte guarda uma boa história”.

Acabei não sendo selecionado, mas a experiência valeu. Diferentemente do veterano em questão, a editoria de polícia nunca me chamou a atenção. Sempre preferi assuntos relacionados à política (que nos últimos anos se misturou bastante com a cobertura policial) e, também, à economia. Mas a frase daquela seleção ficou gravada.
Nas faculdades de comunicação virou tema obrigatório de algumas disciplinas mergulhar na história do caso da Escola Base. É um belo exemplo de como não fazer jornalismo. Um resumo: em 1994, em São Paulo, os donos de uma escola de educação infantil tiveram suas vidas destruídas após uma acusação infundada de que as crianças da instituição eram vítimas de abuso sexual. Alguns morreram sem receber os valores das indenizações. As reputações jamais foram recuperadas. Aos que não conhecem a história, há um bom material na Internet.

Não precisamos ir tão longe para encontrar outros exemplos em que o jornalismo bebeu na fonte da pressa e da afoiteza. Em 2018, em meio à disputa eleitoral, a história de que uma jovem havia sido atacada por neonazistas, em Porto Alegre, correu o Brasil. A história era rica em elementos fantasiosos. Ao descer de um ônibus, a menina teria sido alvo da fúria do grupo, responsável por marcar com um canivete uma suástica no abdome da vítima.

A história não fechava e após investigação da polícia ficou provado que estávamos diante de um relato de falso testemunho. Para evitar um processo, a “vítima”, que passava por tratamento psiquiátrico, aceitou o acordo proposto pelo Ministério Público, no qual prestaria serviços à comunidade. Revisito as duas histórias (poderia elencar outras) para lembrar que prudência e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Para o jornalismo não é diferente.

Atualmente estamos diante de um caso que recomenda cautela. O episódio envolvendo a deputada federal Joice Hasselmann tem muitas perguntas e poucas respostas. Há uma parlamentar ferida. Dentes quebrados, hematomas e a informação de fraturas, inclusive em um dos joelhos. O caso precisa de investigação séria, profunda e independente.
Independentemente do caso em questão, cabe frisar que a parlamentar parece ter uma espécie de magnetismo para a polêmica. Em 2018, durante a campanha eleitoral, Joice gravou um vídeo no qual mostrava uma caixa com uma cabeça de porco, uma peruca e uma carta contendo ameaças. A polícia instaurou inquérito, mas não se tem notícia de que o autor tenha sido identificado. Eleita deputada na esteira da onda bolsonarista, não demorou muito para romper com o atual presidente da República e engrossar as fileiras da oposição. Candidata à prefeitura de São Paulo, adotou em peças de propaganda a imagem da personagem Miss Piggy, do seriado dos Muppets, após piadas e grosserias relacionadas ao seu peso.

Joice, hoje deputada, é jornalista. Sabe como as coisas funcionam do “lado de cá”. Sabe, também, como chamar a atenção e atrair holofotes. Que isso, porém, não influencie as investigações e nem o desfecho do caso, até aqui um manancial repleto de interrogações e uma história, por enquanto, muito mal contada. Para a parlamentar, desejo plena recuperação.


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