A arrogância chinesa

A arrogância chinesa

O mundo capitalista esqueceu que havia outros valores que lhe são caros e que estavam em jogo. Liberdade é um deles, o principal.

Guilherme Baumhardt

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A Organização Mundial da Saúde sugeriu uma auditoria independente internacional na China. Os alvos são laboratórios em território chinês, que poderiam trazer respostas sobre a origem do coronavírus. O governo comunista respondeu dizendo que a proposta era “desrespeitosa ao bom senso e arrogante para com a ciência” (reportagem na página 7 do Correio do Povo desta sexta-feira).

E agora? Para o ocidente acovardado, a representação perfeita da patrola política se fazia presente na figura de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos. Se Trump era a patrola, o que sobra para os chineses?

O topetudo, na visão de alguns, era antipático, grosseiro, rude, desrespeitoso, racista, misógino, xenófobo... Passou a ser criticado porque chamava a Covid-19 de... vírus chinês! Confrontado em uma entrevista coletiva sobre o porquê da referência – após uma parcela da comunidade científica afirmar que “vírus não tem nacionalidade” –, Trump foi curto e grosso: “Porque vem da China”. Uma verdade.

Desde o dia 20 de janeiro, Donald Trump não está mais na Casa Branca. Será que ele não tinha um pingo de razão? Parece um tanto óbvio que existe um sem-fim de interesses nas relações entre Estados Unidos e China. São aspectos de ordem diplomática, comercial, bélica e, a mais importante delas, a definição de quem dá as cartas no tabuleiro global.

Quando Trump enquadrou o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, que ameaçava pela enésima vez construir armas nucleares, o topetudo estava mandando, na verdade, um recado para a China: “Se vocês não controlarem este sujeito, porta-aviões e caças dos Estados Unidos estarão mais presentes no Mar do Japão, no Oceano Pacífico, ao lado da China”. Ele tinha um pretexto.

Veio a “dura trumpista”, que não colocou fim à ditadura norte-coreana. Este nem era o objetivo. Mas as notícias dos testes nucleares conduzidos por Pyongyang, porém, saíram das manchetes e só retornaram agora, no último dia 17 de março, já com Joe Biden à frente da Casa Branca. Na época, um alerta foi dado. Para os chineses, não interessava entregar de bandeja o argumento perfeito para Trump inserir naquela região toda uma parafernália das forças armadas norte-americanas. Como um pai que puxa a orelha do filho, os chineses deram uma chamada no ditador do país vizinho.

Para a OMS, bem-feito. Hoje existem indícios suficientemente fortes de que a entidade que deveria zelar pela saúde global errou feio, protegendo os chineses, atrasando o alerta de pandemia e iniciando uma série de decisões e orientações que em um determinado momento apontavam para um lado e dias depois apontavam para outro (a recomendação para o uso ou não de máscaras é apenas um exemplo).

Trump cortou os repasses dos Estados Unidos para a OMS – algo totalmente justificável para o momento. Houve uma gritaria geral, especialmente da turma engajada e que sempre vira o carro, a vida, a chave para a esquerda. A pergunta mais singela é: será que agora vão condenar a resposta chinesa, carregada de autoritarismo e soberba? Pouco provável.

Do ponto de vista dos valores ocidentais, houve um erro estratégico terrível. Aproveitando a porta aberta para um mercado com bilhões de potenciais consumidores e que, em um primeiro momento dispunha de mão-de-obra barata, o capitalismo mergulhou fundo e fez aquilo que não se recomenda a ninguém que tenha recursos para investir: jamais coloque todos os ovos no mesmo cesto.

O mundo capitalista esqueceu que havia outros valores que lhe são caros e que estavam em jogo. Liberdade é um deles, o principal, algo inexistente na China comunista. É em ambientes livres que a sociedade mais prospera e evolui. Hong Kong talvez seja um dos exemplos mais bem acabados. Protegida por valores e leis britânicas, a ex-colônia alcançou índices de desenvolvimento que ainda não foram vistos em Pequim, mesmo com décadas de crescimento e riqueza sendo gerada. E tudo isso em uma área de parcos recursos naturais e de pouca extensão territorial.

Com Trump longe e um Biden titubeante, o mundo aguarda o líder que chamará a China para um acerto de contas, no pós-pandemia. Saudades da arrogância do topetudo cor de laranja.


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