O embargo da liberdade

O embargo da liberdade

Desejo a Cuba dias melhores. Desejo uma vida com liberdade.

Guilherme Baumhardt

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Enquanto escrevo estas linhas, cubanos saem às ruas na ilha presídio clamando por liberdade. Enquanto escrevo estas linhas, a informação que chega é de que a ditadura cubana reprimiu manifestações com o uso da força. Por aqui, no Brasil, a cantilena dos apoiadores do regime é a mesma de sempre: o problema de Cuba é o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.

Quando alguém vier com essa groselha, convide o sujeito até o supermercado mais próximo e aponte para as garrafas de rum Havana Club, perfiladas nas prateleiras. Ou ainda, convide-o a uma tabacaria onde ele poderá comprar charutos Cohiba, Montecristo ou Romeo Y Julieta (o favorito de Winston Churchill). E, infelizmente, não será possível ir muito além. Não pelo embargo, mas pelo fato de a esquerda ter transformado a ilha em um local improdutivo. Faltaram liberdade para empreender, para criar, para produzir, para se expressar. Sobrou Estado, muito Estado.

Durante anos a tragédia cubana foi mascarada por mesadas. Até o início da década de 1990, bilhões de dólares desembarcavam na ilha todos os anos, vindos da extinta União Soviética. Com o fim da Guerra Fria e a ruína do modelo econômico liderado por Moscou, o crescimento fantasioso não se sustentou. Os irmãos Castro buscaram outras fontes. Quando Hugo Chávez ascendeu ao poder, o dinheiro dos petrodólares da Venezuela ajudou a bancar a ilusão cubana. Com a desvalorização do petróleo e a miséria instalada a partir de Caracas, a fonte secou.

O Brasil teve a sua parcela de contribuição com a ilha presídio. Durante as gestões petistas, socorremos a ditadura aportando dinheiro para a construção de um porto (Mariel) e contratamos médicos (alguns, não todos) para o programa federal Mais Médicos. Enquanto profissionais vindos de outros países recebiam 12 mil reais, os cubanos ficavam com apenas 10% do valor. O restante ia para... Cuba!

Em algumas redações jornalísticas no Brasil e no mundo é possível que colegas estejam enfrentando crises, talvez até existenciais. Existe provavelmente uma desorientação. “Para onde correr? O que dizer?”, perguntam. Um exemplo: há vídeos mostrando cubanos nas ruas clamando por liberdade. “Libertad, libertad”, gritam. Mas algumas manchetes dizem que a insatisfação se deve à pandemia e à falta de vacinas, uma meia verdade.

Com o passar dos anos, assistimos à queda de mitos construídos com a ajuda da imprensa e da (autoproclamada) intelectualidade brasileira. A educação cubana era exemplar, a saúde era de ponta. Durante anos essa papagaiada foi repetida à exaustão. E nós comprávamos e acreditávamos e repetíamos aquele festival de mentiras.

Com a ditadura caindo de podre, teremos uma dimensão mais precisa do que foi o inferno vivido na ilha durante 60 anos. Tiraremos a mordaça da boca daquilo que Cuba tem de melhor: seu povo. Ouviremos os horrores da Disneylândia esquerdista, terra de gente de valor, mas que sucumbiu durante anos a um regime que oprime, cerceia liberdades e mata o indivíduo.

Há muita coisa que não pode ser esquecida, mas faço questão de relembrar frases ditas por aquele que almeja voltar ao Palácio do Planalto. Em 2010, ainda presidente, após a morte de Orlando Zapata, preso político cubano condenado à prisão por criticar a ditadura dos irmãos Castro, Lula disse: “Lamento profundamente que alguém se deixe morrer por uma greve de fome”. Uma inversão de fatos e valores jamais vista. Não satisfeito, foi além: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba (...) Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade". Pelo visto, para Lula, há uma equivalência entre quem luta por liberdade e aqueles que mataram, roubaram ou estupraram.

Desejo a Cuba dias melhores. Desejo uma vida com liberdade.


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