Quando o medo vence o respeito

Quando o medo vence o respeito

Nossas Forças Armadas atuam muito mais em missões de paz (de grande relevância) do que em combates diretos com outras nações

Guilherme Baumhardt

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Nos Estados Unidos, onde morei por quase um ano, a população nutre o mais absoluto respeito por veteranos de guerra. As pessoas veem nos ex-combatentes mais do que militares que defenderam um país ou um território, mas também defensores de valores caros ao mundo ocidental, tais como liberdade e respeito. De maneira bem simples, é comum, por exemplo, que reservistas ganhem descontos em restaurantes, isso quando não saem do estabelecimento sem pagar a conta, em um gesto de gentileza e reconhecimento pelos serviços prestados.

Não temos tantos veteranos de combate quanto os norte-americanos. Não somos um país belicoso. Raramente entramos em conflitos. Nossas Forças Armadas atuam muito mais em missões de paz (de grande relevância) do que em combates diretos com outras nações. São poucos os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira ainda vivos. Pudera, estamos falando de heróis da Segunda Guerra Mundial. Mas mais do que perder nossos veteranos para a irrefreável passagem do tempo, perdemos ao longo das últimas décadas também o respeito.

Anos atrás, conversando com um veterano jornalista, ouvi um convite para um desafio: “Façam uma pesquisa junto à população e tentem identificar a percepção que o povo tem, por exemplo, do Poder Judiciário. No lugar de respeito, medo será a resposta mais comum”. Nunca levei a ideia adiante e acredito que havia uma dose de exagero e talvez de generalização. Mas não se tratava de um absurdo completo.

Não me refiro aqui às instâncias iniciais da Justiça, mas sim ao Supremo Tribunal Federal. A mais alta Corte deveria ser balizadora para as demais. Uma reserva moral, de sabedoria, de conhecimento, de decisões bem construídas e embasadas. Hoje ela se resume a um amontoado de acórdãos conflitantes, que mudam ao sabor do vento com o passar dos anos. Impera a insegurança. O reflexo disso? Ricardo Lewandowski ouve dentro de um avião de carreira a frase: “Eu tenho vergonha do Supremo”. Gilmar Mendes, mais de uma vez, já foi abordado nas ruas de Lisboa, em Portugal, a ponto de correr para buscar abrigo em uma loja, fugindo do indignado cidadão brasileiro, insatisfeito com o trabalho realizado pelo STF.

Não há um culpado único. São vários. E a perda gradativa do respeito não fica restrita ao Supremo Tribunal Federal. Você consegue imaginar o senador Renan Calheiros caminhando na Avenida Paulista? Ou curtindo a praia de Ipanema, no Rio de Janeiro? Será que Lula conseguiria ir, sem seguranças, a um supermercado ou comprar frutas na feira sem enfrentar vaias e protestos? Acredito que todos sabemos as respostas. E não estamos tratando de uma insatisfação isolada, de um ou dois malcriados. É um sentimento geral, obviamente com exceções.

Se não temos mais respeito, passamos a ter medo. Medo do que um Supremo Tribunal Federal, que inaugurou a era da autossuficiência, é capaz de fazer, quando institui um procedimento investigatório no qual todas as etapas estão sob a sua batuta. Medo alimentado por um Senado cujos representantes eleitos parecem ter medo de enfrentar este cenário e colocar um ponto final em uma clara extrapolação de atribuições. Medo ao imaginar do que seria capaz de fazer novamente no Palácio do Planalto um ex-presidente que foi condenado por três instâncias, mas graças a um estalar de dedos de um STF sem freios voltou a ter condições de disputar uma eleição.

E o mais absurdo disso tudo: imaginar que nosso medo diário é alimentado não pelas situações relatadas acima, reais, concretas, mas sim pelo dedo apontado por estes na direção do atual presidente da República e do que ele poderia fazer, mas até agora não fez. Durma-se com um barulho destes.


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