Bombardeio de traques

Bombardeio de traques

Os principais indignados com os casos Covaxin e AstraZeneca são justamente aqueles que querem mais e mais Estado

Guilherme Baumhardt

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A agonizante CPI que investiga as ações do governo federal durante a pandemia anunciou com pompa e circunstância o que seria uma espécie de bala de prata: o depoimento dos irmãos Miranda. Um deles, Luis Cláudio Miranda, é deputado federal e está mais enrolado que novelo de lã, respondendo a processos na Justiça. O outro, Luis Ricardo Miranda, é funcionário do Ministério da Saúde. A denúncia: um sobrepreço de 1000% na compra de vacinas de um laboratório indiano.

A bala de prata, até agora, saiu pela culatra. O contrato suspeito não foi fechado e o valor com ágio foi desmentido pelo mundo real. No lugar de sobrepreço, o que havia era uma política de valores diferentes conforme o comprador. Para o governo da Índia, que subsidiou a Covaxin, o valor era menor. Para hospitais privados e exportação, o preço cobrado era outro, maior, o mesmo que constava no pedido feito pelo governo brasileiro. A outra “suspeita” – a pressão de superiores sobre o Miranda do Ministério da Saúde – se esvaiu após a fala do denunciante na CPI. O que a maioria viu ali foi uma relação hierárquica: uma das funções de qualquer chefe no mundo é... cobrar. Não há menção a preços ou indícios de conduta duvidosa. O Miranda funcionário público certamente tem muitas qualidades, mas agilidade parece não ser uma delas. No Rio Grande do Sul, um xiru resumiria as mensagens dos superiores da seguinte maneira: “te mexe, vivente!”.

Como a bomba da Covaxin não passou de um traque, veio outra denúncia, novamente “explosiva”. Desta vez, um representante de uma empresa interessada em intermediar a venda de vacinas da AstraZeneca para o governo federal, com um ágio de um dólar no preço de cada dose comprada. Como estamos falando de centenas de milhões de doses, seriam centenas de milhões de dólares a serem desviados dos cofres públicos. A denúncia foi trazida pelo jornal Folha de S.Paulo. No final da reportagem, após o relato de negociações e reuniões, o texto diz que o encontro “não evoluiu”.

Para completar (e quem sabe desmontar a narrativa), a AstraZeneca afirmou que não trabalha com representantes no Brasil para a venda da vacina para a Covid-19. Ou seja, não há intermediários, mas sim uma relação direta da empresa com o governo. Esta, aliás, é mais uma pergunta que ficaria sem resposta: se o Brasil está fabricando o imunizante desenvolvido pela AstraZeneca nos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz – fruto de um contrato fechado pelo então ministro Nelson Teich, em abril de 2020 – porque comprar doses importadas?

Se existem suspeitas, que sejam investigadas. Até aqui, não há nada suficientemente forte para “abalar a república”, como prometeu um dos depoentes. O mais curioso, porém, é que os principais indignados com os casos Covaxin e AstraZeneca são justamente aqueles que querem mais e mais Estado, um mastodonte gordo e inchado. Se quisessem realmente resolver o problema, defenderiam o oposto: a participação cada vez menor do poder público nas nossas vidas.

Que Brasília é um antro de lobby, todos sabemos. Tempos atrás (talvez seja assim até hoje) uma das credenciais mais disputadas no Congresso era a de imprensa, justamente porque dava acesso para a antessala do plenário, onde fica o cafezinho e o contato com parlamentares é praticamente ilimitado. Ali se misturavam (ou misturam) deputados, senadores, jornalistas, assessores e... lobistas.

Para corrigir isso, o melhor caminho é menos Estado. Além de abusarmos da razão, deixando a emoção de lado.


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