Temporada renova genética do rebanho

Temporada renova genética do rebanho

Criadores retomam compras de reprodutores em leilões que antecipam a época de monta e, com os preços do boi gordo no pior momento desde 2021, favorecem a reposição de matrizes, com foco na rentabilidade prevista para 2025

Por
Thaise Teixeira

Foi com o preço do boi gordo no pior patamar desde 2021, quando o quilo vivo ultrapassou o recorde histórico de R$ 11, que, neste segundo semestre, os pecuaristas voltaram às pistas. Depois de negociações bastante retraídas com os terneiros no primeiro semestre, o foco está na renovação da qualidade do rebanho com vistas à valorização do mercado pecuário esperada para o ano de 2025. Bastante antecipada em relação à conhecida “Temporada de Primavera”, a “Temporada Gaúcha”, como foi denominada pelo Sindicato dos Leiloeiros Rurais e Empresas de Leilão do Rio Grande do Sul (Sindiler/RS), deve terminar com saldo positivo, especialmente para os compradores. 

Mais de uma centena de leilões realizados em expofeiras e em recintos particulares ofertaram produtos para todos os gostos, bolsos e estratégias. Animais de idade e peso similares foram presenças frequentes, segundo o médico veterinário, consultor e proprietário da FF Velloso & Dimas Rocha Assessoria Agropecuária, Fernando Velloso. No entanto, as vedetes foram os melhoradores de rebanho de alta qualidade, que, apesar de acompanharem a depreciação do mercado, efetivamente, tiraram os produtores da zona de conforto e impulsionaram as médias de comercialização. “Em cada leilão, tivemos exceção. Animais de elevado valor genético tiveram valor multiplicado duas ou até três vezes ao da média. Os reprodutores de destaque têm sobrepreço, mas nada comparado aos recordes de 2021”, avalia o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NESPro/UFRGS), Júlio Barcellos. Os preços mais altos tiveram a contribuição das centrais de inseminação, embora em menor participação que em temporadas anteriores. “Esses touros chegaram a valor três ou quatro vezes mais alto que o de um touro comercial, chegando a R$ 50 mil”, cita Velloso. 

A maioria das transações teve como norte a rentabilidade sobre a geração de terneiros que nascerá em 2024, quando deverá se iniciar o primeiro dos próximos três anos do novo ciclo pecuário. Com foco na atual temporada de monta, grande parte das negociações foi menos disputada que nos últimos dois anos. Algumas baterias voltaram para casa, mas outras foram muito bem aproveitadas por quem tinha caixa para fazer estoque e adquirir exemplares reservas. “Foi época de o criador comprar mais do que precisa. Ano que vem, os produtos estarão valendo mais que nesse ano”, adianta Velloso. 

A usual relação de troca de até 2 mil quilos de boi gordo por reprodutor norteou as aquisições, muitas das quais, dada a depressão mercadológica, puderam ser feitas a dedo. “Com o quilo vivo do boi a R$ 10, o touro facilmente chegava a R$ 20 mil em 2022. Nesse ano, com o quilo vivo a R$ 7, o reprodutor vale R$ 14 mil”, compara o consultor, referindo-se ao critério de compra e às médias frequentes da temporada.

Conforme levantamentos semanais do NESPro (abaixo), de 6 de julho de 2022 - última vez que o boi gordo ultrapassou os R$ 11/kg/vv, a 6 de setembro de 2023 - quando o índice chegou ao pior patamar dos últimos 500 dias - a cotãção desvalorizou 41,59%. A depreciação acumulada coincidiu com o mês que abarcou quase 40% dos 112 remates previstos pelo o Sindiler/RS na temporada. “Houve uma queda muito grande de preço a partir de agosto. Foi muito impactante, todo mundo se assustou e freou os investimentos com o quilo vivo a R$ 6,50. A confiança dos compradores, agora, está maior do que há 45 dias”, relata Velloso. A desvalorização da cotação referência para a vaca gorda, sob a mesma base de comparação, por sua vez, acumulou recuo de 49,45%. A queda livre no preço comercial das fêmeas começou em de R$ 10,11 e terminou em R$ 5,00, seguindo a mesma toada dos machos. 

Em outubro, a tímida reação do mercado refletiu nas pistas, que passaram a operar com base no quilo vivo de R$ 7,50 para os machos (+15,38% ante 6 de setembro) e de R$ 6,30 para as fêmeas (+26%). Os reflexos, naturalmente, apareceram nas extremas e diversificadas médias de comercialização da temporada que, segundo o presidente do Sindiler/RS, Fábio Crespo, situam-se entre R$ 12 mil a R$ 22 mil.

Transformação e profissionalização nas criações

Com oferta de pasto no inverno, pecuarista acelera e intensifica a produção de carne de qualidade com foco na próxima geração de animais precoces, com alta capacidade para converter pasto em peso e resultar em carcaças melhor remuneradas no frigorífico 

Segundo o presidente do Sindiler/RS, Fábio Crespo, os compradores de hoje se informam sobre os programas de melhoramento, olham os animais nos catálogos e quando decidem comprar é porque entendem que vale o investimento | Foto: QZ7 Filmes / Divulgação / CP.

A tendência baixista nos preços de agosto e setembro é conhecida do pecuarista gaúcho, sabedor da tradicional elevação na oferta de gado pronto para o abate nos meses que antecedem o plantio de verão. Porém, a necessidade de integrar e verticalizar a agricultura levou para os leilões um comprador um pouco diferente daquele que esperava o mês de setembro para começar a pensar nos reprodutores que usaria para monta.

Com avanço da agricultura sobre as áreas de pecuária, especialmente na Metade Sul do Rio Grande do Sul - considerada pela Federação da Agricultura do RS (Farsul) como a nova fronteira agrícola do Estado -, o criador mais profissionalizado não mais escolhe os touros somente pela avaliação fenotípica (condição corporal) e pelo conhecido perímetro escrotal. Hoje, seus lances são pautados na premissa de uma produtividade global, alta, constante e ágil, com vistas a diminuir a emissão dos gases de efeito estufa (GEEs) à atmosfera, preservar o meio ambiente e, principalmente, garantir a continuidade dos negócios.

O cultivo de pastagens de inverno sobre a resteva da soja, do milho ou do arroz preencheu a lacuna nutricional que impedia os animais de estarem prontos para venda antes da Expointer. A exposição, que acontece entre o último final de semana de agosto e o primeiro de setembro, era uma espécie de “divisor de águas” entre os negócios de outono e os de primavera. 

Atualmente, o calendário oficial de remates foi antecipado em praticamente 30 dias, respondendo à necessidade de quem precisa entourar as matrizes em outubro e novembro, e não mais até janeiro do ano seguinte. A temporada 2023 foi aberta em 11 de agosto, pela Cabanha Soldera, de Panambi. “A qualidade vendeu. Foi fundamental para ter liquidez. O investimento vai gerar resultado, com aumento de produtividade para 2024. Quem comprou um touro não estava pensando exclusivamente no preço do mercado atual. O terneiro nasce em 2025, quando o ciclo pecuário novamente estará em alta”, diz o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NESPro/UFRGS), Julio Barcellos.

O presidente do Sindicato dos Leiloeiros Rurais e Empresas de Leilão do Rio Grande do Sul (Sindiler/RS), Fábio Crespo, destaca que o cenário foi percebido na movimentação de clientes que compravam ou escolhiam as baterias finais que entravam em pista. “Hoje, eles se informam dos programas de melhoramento. Primeiro, olham o bicho, depois, o catálogo. E, quando juntam as duas coisas, pagam porque sabem que o retorno é garantido”, afirma. A realidade mostrou-se também presente entre os que avançam na busca por informações atualizadas e complementarem às disponibilizadas nos catálogos.

As escolhas dos exemplares baseiam-se no percentual de certeza sobre o repasse de determinadas características do touro às gerações seguintes. Entre as aptidões mais procuradas, neste ano, estão as de gerar fêmeas precoces ou superprecoces e com facilidade de parto. “Ao emprenhar uma novilha (menos de 14 meses), o criador tem chance de ter gastos extras no nascimento”, lembra o consultor Fernando Velloso, referindo-se à mão-de-obra especializada, medicações e, inclusive, perda das vacas e das crias (ativos). Frente ao grande abate de matrizes neste ano e com menos exemplares para entourar, o criador valorizou a categoria, que, segundo o consultor Fernando Velloso, “foi muito bem vendida”.

O leiloeiro Marcelo Silva, da Trajano Silva Remates, ressalta a grande procura por matrizes receptoras de embriões fertilizados in vitro, fato que, de acordo com ele, naturalmente diminuiu a necessidade de touros para a reprodução. O criador mais especializado também buscou garantia de sucesso na reprodução de um plantel com maior capacidade para converter o pasto em ganhos de peso diários e em carne com maior espessura de gordura e marmoreio, atributos que lhe conferem melhor remuneração no frigorífico. “A presença desses compradores está aumentando. São os que estão indo para o que a ‘turma’ chama de pecuária de precisão, que querem fazer mais ajustes finos”, analisa Velloso.

Marcelo Silva atribui justamente ao perfil de compra mais segmentado o feito de algumas médias de comercialização descolares do atual mercado do boi gordo. “Quando fizemos a projeção de vendas para o segundo semestre, na empresa, esperávamos R$ 15 mil de média para os machos e R$ 8 mil para as fêmeas. Mas, nos leilões que conduzimos, vendemos machos a R$ 20 mil, R$ 22 mil. E a mesma coisa aconteceu com as fêmeas. Em anos anteriores, um touro bom valia cinco terneiros. Agora, vale 10 terneiros. E a genética descolou disso”, explica. 

Expofeira de Pelotas alia negócios e tradição

Sete remates de elite da característica região arrozeira lotaram o Pavilhão Álvaro Azevedo, no Parque Idelfonso Simões Lopes, entre os dias 9 e 15 de outubro, e coroaram os 125 anos Associação Rural de Pelotas (ARP), a mais antiga do Rio Grande do Sul 

Média dos touros Angus Puros PO na Expofeira de Pelotas ficou em torno dos R$ 18 mil nas ofertas da Cabanha Santa Eulália, presença marcante no evento | Foto: QZ7 Filmes / Divulgação / CP.

No ano em que a Associação Rural de Pelotas (ARP) completou 125 anos, os criadores da Metade Sul do Rio Grande do Sul lotaram o Pavilhão Álvaro Azevedo, no Parque Idelfonso Simões Lopes em busca de rusticidade e produtividade no campo. Os sete remates de elite realizados de 9 a 15 de outubro na cidade, foram marcados pela força da história e da tradição da região arrozeira na pecuária. Assim como ocorreu em todas as outras praças, as compras foram efetivadas com preços em torno de 20% inferiores aos de 2022. Segundo o presidente da ARP, Augusto Rassier, as médias ficaram entre R$ 15 mil e R$ 17 mil, ante a de R$ 20 mil de 2022. “Confesso que tínhamos expectativas de que os preços fossem mantidos, mas o mercado está muito diferente e os valores acompanharam”, relata. No entanto, o gado, pronto para o trabalho a campo, teve liquidez.

Com mais de três décadas de pista na Expofeira, a Cabanha Santa Eulália, do produtor Joaquim Mello, foi uma das que liquidou 100% da oferta. A propriedade vendeu todos os 34 touros Angus rústicos PO à média de R$ 18 mil. O pregão vendeu sete touros da Cabanha Puruã, de Arroio Grande e, ao total, faturou R$ 701,8 mil com 41 reprodutores negociados para Pelotas, São Lourenço, Rio Grande, Piratini, Canguçu, Jaguarão e Arroio Grande. “Fizemos média de 18 mil em um ano muito difícil, com o terneiro valendo pouco e o preço do gado gordo caindo muito”, avalia Mello. 

A maioria dos compradores foi constituída por clientes conhecidos e tradicionais da propriedade, que fizeram os preços mais altos chegarem a R$ 23 mil para dois destaques dessa edição da exposição. Ambos são filhos do touro SAV Resource, líder no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (PROMEBO), coordenado pela Associação Nacional de Criadores “Herd-Book Collares” com apoio da Embrapa Pecuária Sul. Um deles foi o touro Angus PO de tatuagem 01775, com 920 quilos aos dois anos. O animal, que se consagrou campeão da Expofeira na categoria individual, foi adquirido por Ronaldo Zechlinski de Oliveira, proprietário da Agropecuária Rio Grande e presidente do Sindicato Rural de Rio Grande. O outro, de tatuagem 1767 e 900 quilos, foi vendido a José Paulo Machado dos Santos, também cliente de longa data da Santa Eulália. “Mas o maior consumidor da minha cabanha sou eu”, brinca o pecuarista, que, também faz recria, engorda e cultiva soja e arroz.

Fêmeas da recalada em Alta

O preço pago pelas fêmeas da Recalada ficou na média dos R$ 35 mil, mas uma delas, entre as sete colocadas em pista, chegou a R$ 64,8 mil, vendida a fazenda Angus Rio da Paz, de Cascavel, no Paraná | Foto: Edu Rickes / Divulgação / CP.

As fêmeas Angus PO foram as campeãs de preço no leilão da Cabanha Recalada, do criador Fábio Ruivo, de Capão do Leão, município vizinho de Pelotas. A média da categoria, que teve oferta de sete exemplares, chegou a R$ 35,3 mil. A matriz mais valorizada do remate Recalada 493 Patriarch. Arrematada pela propriedade Angus Rio da Paz, localizada em Cascavel, no estado do Paraná, a fêmea foi valorizada em R$ 64,8 mil. A ainda considerada terneira nasceu em julho do ano passado e estava, no momento da venda, com 482 quilos e Índice de Desmame 3% na avaliação do Sumário Genômico Natura, da Gensys.

Entre os 35 touros Angus PO a média foi de R$ 15,6 mil. O destaque ficou por conta do reprodutor Recalada 404 Milei, que foi 50% comercializado para a Zebu Fértil, empresa de inseminação originária de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. O exemplar seguiu direto para coleta e congelamento de sêmen na CRIO Central Genética Bovina, empresa de Cachoeira do Sul que mantém o Centro de Coleta e Processamento de Sêmen Bovino (CCPS) com foco na prestação de serviço a empresas e produtores. "Milei não é somente mais um filho de Resource no mercado, pois, além de sua ótima avaliação, tem no seu pedigree Bismarck, Density e EXT", detalhou Fábio Ruivo. O animal também é TOP 1% no PROMEBO e no Natura.

Raças sintéticas elevam as médias no Pampa

Rusticidade dos zebuínos aliada à maciez conferida à carne dos taurinos impulsiona médias dos exemplares Braford e Brangus na região produtora da certificada carne do Pampa Gaúcho, a única com Indicação de Procedência (IP) no Brasil.

Leilões realizados na Campanha e no Pampa evidenciaram escolha dos pecuaristas por animais mais resistente e com perfis de rentabilidade mais adaptados ao momento econômico da atividade | Foto: Rodrigo Alves Vieira / Divulgação / CP.

A Pesquisa Pecuária Municipal de 2022, recentemente divulgada pelo IBGE, trouxe os rebanhos bovinos de Alegrete e de Santana do Livramento entre os 50 maiores do Brasil. Respectivamente, eles contam com 572.008 e 531.504 cabeças de gado. Na sequência, estão Uruguaiana (363.453) e Dom Pedrito (333.050). Com uma densidade populacional maior no campo do que em cidades como Caxias do Sul (463.338), Canoas (347.657) e Pelotas (325.689), conforme o Censo Demográfico 2022 (IBGE), as praças da Campanha e do Pampa evidenciam o profissionalismo no melhoramento genético e na produção da carne no RS. Com assertividade nos acasalamentos e foco na pecuária de resultados, cabanheiros e criadores elevaram, mesmo que timidamente, os patamares de comercialização de agosto. Os lances, disputados com criadores de outros estados, principalmente de Santa Catarina e do Paraná, subiram para as raças sintéticas (3/8 de sangue zebuíno e 5/8 de taurino), como Brangus e Braford. Ambas têm em comum características como rusticidade e adaptabilidade a campo, o que reduz a incidência de carrapato e garante produtividade frente às frquentes extremidades climáticas do RS.

Foi o que retratou a 85ª Expofeira de Santana do Livramento. Entre 4 e 15 de outubro, a velocidade do martelo para as raças Angus, Brangus, Hereford e Braford foi ditada pelos tradicionais leilões Touros da Fronteira, Parceria Genética, São Bento & Reculuta, Estância Carcávio, Estância Bela Vista e Sigma Brangus. Balizados não mais pelo pior patamar de preço desde 2021, como na abertura da temporada, mas pelo quilo vivo do boi gordo na casa dos R$ 7 e o da vaca gorda, na dos R$ 6 (NESPro/UFRGS), os negócios chegaram à media de R$ 29,7 mil para os touros e R$ 23 mil para as fêmeas Braford da Cabanha São Bento. A raça também despontou no remate da Bela Vista, que vendeu o touro Rudá da Bela Vista por R$ 168 mil e a vaca Lady, por R$ 132 mil, com média final de R$ 31,7 mil. 

Em Dom Pedrito, que, assim como Santana do Livramento, integra a região produtora da certificada carne do Pampa Gaúcho, as vendas foram efetivadas por tradicionais compradores. No 51º Remate Anual (virtual) da Estância Guatambu e da Agropecuária Caty, realizado em 5 de outubro, a média dos touros provados pelo programa de seleção Conexão Delta G ficaram em R$ 16 mil (Polled Hereford) e em R$ 18,6 mil (Braford). As médias atingiram R$ 11,5 mil para as fêmeas de 2 anos e R$ 4,6 mil para as de 1 ano. No remate da Santa Thereza Agropecuária, do criador José Pires Weber, os destaques foram a consistência, a mansidão e a rusticidade das raças Angus e Ultrablack, com média de R$ 12 mil para os touros. “Houve uma boa liquidez e os preços estiveram compatíveis com o momento ruim que vive a pecuária”, avalia Weber.

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895