Bruna Tomaselli quer deixar sua marca no mundial de automobilismo para mulheres

Bruna Tomaselli quer deixar sua marca no mundial de automobilismo para mulheres

Aos 23 anos, catarinense quer brigar por pódios e mostra confiança em bons resultados na W-Series

Bernardo Bercht

Piloto catarinense diz que já separou nova prateleira para mais troféus

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A catarinense Bruna Tomaselli expande sua volta ao mundo dentro de um cockpit neste final de semana, na Áustria. Desde os 16 anos ela pilota carros de fórmula, e depois de colecionar pódios em cinco categorias diferentes, aos 23 chega ao momento mais importante da carreira: estreia na W-Series, o mundial de automobilismo para mulheres, preliminar da Fórmula 1. E ela começa confiante. "A gente fez uma sala nova de troféus, umas prateleiras a mais. Deixei uns lugares para os da W-Series", afirma.

Bruna estreou nas pistas do Rio Grande do Sul, na Fórmula Júnior e na Fórmula 1.6 RS. Depois disso, foi desbravando o continente com a F4 Sudamericana, passou pela ásia com a MRF Challenge e cumpriu três temporadas na USF2000, nos Estados Unidos. A larga experiência nos chamados monopostos foi essencial para passar na seletiva da W-Series, que ofereceu seis vagas para pilotos de todo mundo se unirem às outras 12 competidoras que já estavam no certame em 2019.

"Todas as categorias que eu competi, desde a Formula Junior, a F4 Sul-Americana, USF2000. Tudo me preparou muito para chegar aqui", avalia a catarinense, que almeja resultados e não apenas participar. "Eu quero disputar pódios e vitórias. No campeonato, um top cinco esse ano seria muito bom", avalia.

Antes gerida por uma equipe técnica só, agora a W-Series terá times próprios, a exemplo da Fórmula 1. Para buscar os resultados, Bruna correrá na Veloce Racing, ao lado da atual campeã, a britânica Jamie Chadwick, também de 23 anos. Apesar da "encrenca" de ter do outro lado dos boxes a potencial melhor piloto do grid, Bruna crê que vai ser positivo. "Vai ser ótimo. É a primeira campeã, então claramente é muito rápida. Vou poder aprender muito", projeta.

Depois da emoção de ser selecionada, tudo virou uma imensa espera para Bruna, por conta da Covid-19, que suspendeu a temporada da W-Series em 2020. O retorno aos cockpits da categoria aconteceu apenas em maio passado, nos testes de pré-temporada no pequeno circuito de Anglesey, no País de Gales. Ali, a piloto teve a primeira amostra da concorrência. "A pré-temporada foi bem competitiva, acho que o campeonato também vai ser. Todas tem experiência e com capacidade de guiar em todas as categorias do mundo", avalia. "A favorita é a Chadwick, a atual campeã, mas ela não vai ter vida fácil. Pelo que vi, todas tem condições de andar perto da turma da frente", define Bruna.

"A expectativa está grande, estou há um tempão esperando, era para ser ano passado, não aconteceu por conta do coronavírus", comenta a catarinense, salientando que manteve forte no Brasil os treinamentos para estrear com tudo. "Eu continuei treinando de Fórmula 3 no Brasil, fiz muitos treinos e participei das corridas da Império Endurance Brasil, com protótipos", destaca. No geral, para uma temporada "freada" pela pandemia, as disputas da Endurance renderam duas vitórias e três pódios. "Isso me deu tempo de pista. Também fui para o simulador e andei de kart, para não perder ritmo e chegar preparada", explica.

O simulador, por sinal, deve ser um aliado importante no aspecto mais complicado para quem nunca fez carreira na Europa. "Não conheço nenhuma das pistas em que vou andar no campeonato. Só tive a opção do simulador, então usei bastante", salienta Bruna. "Quando chega no autódromo, não é tudo igual, mas ajuda bastante. Também consegui vários vídeos onboard e estudei muito os detalhes", enfatiza a piloto. Pela impressão do computador, ela acredita que vai se dar bem no asfalto austríaco. "Eu gosto de pistas que tem um pouco de tudo, curvas de alta, freadas fortes e mudanças de elevação. Gostei da Áustria no simulador, uma pista bem de alta velocidade. Espero curtir mais ainda quando acelerar de verdade."

Sobre estar no paddock da Fórmula 1, Bruna crê que o acesso será bem restrito, por conta da Covid-19, mas apenas a atmosfera de um grande evento já vai valer a pena. "Se for para tietar, eu vou tirar uma selfie com o Lewis Hamilton! Eu nunca tive oportunidade de ir numa corrida de Fórmula 1, então vai ser muito bacana só de estar lá nos boxes", projeta.

Desbravando a W-Series

O automobilismo é dos poucos esportes que possibilita a disputa entre homens e mulheres com resultados equivalentes. Ainda assim, a cultura geral centrada no universo masculino gerou menos oportunidades e permitiu surgirem poucas expoentes nas categorias de ponta. A francesa Michelle Mouton marcou época vencendo quatro provas do Mundial de Rally nos anos 1980. A italiana Lella Lombardi foi a única a pontuar na Fórmula 1, com um sexto lugar no GP da Alemanha de 1975. Danica Patrick emplacou de vez a imagem feminina no esporte ao vencer a prova de Motegi da Fórmula Indy em 2008 e, depois, ser terceira colocada nas 500 Milhas de Indianápolis de 2009.

O objetivo da W-Series é reunir as melhores pilotos do mundo não apenas para competir entre si, mas para criar um cenário que fomente o crescimento de todas no esporte a motor mundial. A meta é colocar representantes, primeiro na Fórmula 2 e; depois na Fórmula 1 e Fórmula Indy. "O objetivo é preparar as pilotos para os próximos passos, e a categoria faz muito bem isso", analisa Bruna. "A gente compete só entre as meninas, mas depois a meta é voltar aos grids mistos. A organização é muito bem feita. A W Series está num ótimo patamar, até para correr junto com a F1."

Na parte técnica, o carro é exatamente um degrau abaixo do Fórmula 2. "O W-Series é o mesmo chassis da Fórmula 3 Regional, o italiano Taatus. É o mesmo que eu guiei nos Estados Unidos, mas com motor mais potente, de 270 cavalos. Supera os 250 por hora, então é uma máquina bem bacana", define a piloto. Conforme Bruna, ter guiado um carro parecido nos EUA foi essencial para uma rápida adaptação.

Uma novidade para 2021 será a liberação do acerto do carro para cada competidor. "Cada piloto tem seu engenheiro e agora temos algumas coisas que podemos mexer no carro para adaptar à pilotagem", detalha. "Isso é uma novidade para essa temporada, antes se algo mudava, trocava para todas. Agora, a gente vai poder adaptar um pouco ao estilo", relata Bruna, que vê como positiva a mudança. "Eu sempre trabalhei muito no ajuste do carro nos treinos de F3 Brasil, e acho que isso vai me ajudar."

Serão oito etapas que vão acompanhar o calendário da Fórmula 1, seis delas na Europa - duas na Áustria, Grã-Bretanha, Hungria, Bélgica, Holanda - e duas na América do Norte - Estados Unidos e México. A grande campeã será conhecida no Autódromo Hermanos Rodríguez, em 30 de outubro, e receberá um prêmio de 500 mil dólares para financiar o próximo passo na carreira.

 


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