Sobre duas meninas

Sobre duas meninas

Oscar Bessi

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Duas meninas brasileiras mereceram uma atenção especial dos leitores brasileiros nas notícias desta semana. A primeira, positiva. Rayssa Leal, a “fadinha do skate”, conquistou a medalha de prata nas Olimpíada de Tóquio com apenas 13 anos. Um exemplo fantástico para as crianças e jovens  deste país. A segunda, porém, atraiu os olhares do público de forma totalmente negativa. Chamada de “gatinha da cracolândia”, uma jovem de 19 anos usava até mesmo sua condição de mãe para ocultar uma atividade terrível: o tráfico de drogas e suas novas estratégias móveis para seguir arrancando dinheiro dos usuários, na cracolândia paulistana.

A fadinha entrou para a história. A gatinha do crack, para a crônica policial. A skatista era anônima, apenas mais uma garota brasileira remando contra todas aquelas mais que manjadas marés: ser mulher, ser jovem neste país, não estar nos principais centros brasileiros, ser esportista de uma modalidade dominada por meninos. Já a moça que se escondia na cracolândia sob vestes que tentavam ocultar sua verdadeira identidade,  já estava sendo observada há meses pelos policiais. Ela era modelo e tinha diversos seguidores nas redes sociais. Uma defendia a vida, a saúde, a esperança, um jeito de vencer pelo seu sonho e pelo seu esforço. A outra dava de ombros se a morte ou outra desgraça qualquer estivesse a dois passos da sua tenda. Uma gosta de estar com o povo do bem. A outra, com as sombras do mal. Uma teve a sorte do incentivo dos pais. A outra preferiu o PCC, que é quem comanda os milhões arrecadados com as vendas de drogas aos zumbis paulistanos. A fada veio do interior de um estado ao Norte do país, longe do tudo. A gata da droga estava na maior cidade da América Latina, no coração das oportunidades.

A fada do skate se negou a tirar foto com os políticos que não a ajudaram antes, mas queriam contabilizar pontos para a sua imagem com as glórias, dela, que vieram depois. E declarou incisiva que só vai agradecer quando tiver realmente o que agradecer. Ela não finge, ela não mente, ela não faz pose. Ela luta. Ela vence. Ela semeia esperança e exemplo. E só tem 13 anos. Já a moça ligada ao PCC usava a mentira como instrumento de lucro, pois é assim que fazem todos os traficantes, ao se aproveitarem das dores, das ausências, fragilidades e carências de quem não encontra mais saída e se entrega ao vício e ao desespero. E semeava o prolongamento proposital da desesperança, da dor, da infelicidade e até do ódio. Particularmente, ainda acho que se é muito tolerante com traficantes neste país. Pelo mal que fazem. Assim como com os corruptos. E assim como não se faz praticamente nada pela educação e pelo esporte que (e só eles) têm esse poder mágico: criar fadas.


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