Carta do filho de um herói

Carta do filho de um herói

Oscar Bessi

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Não vá, meu pai. Vou te pedir que hoje, só hoje, o senhor não vá. Que abra uma exceção no juramento que, tantos anos depois, ainda sabe de cor e repete cheio de orgulho, sílaba por sílaba. Não decoradas. Ditas com a alma, na força da fé, como uma oração onde o templo é o seu trabalho. Porque o senhor sempre vai. Sempre parte, mesmo nos momentos em que prometeu ficar, mesmo nos dias em que jurou não partir, mas de repente “caiu a casa” e lá o senhor se foi, apressado, sério, concentrado, falando rápido no telefone enquanto se equipava. Foi. Porque chamaram, e também quando ninguém chamou e o senhor se sentiu no dever de ir ajudar, de largar tudo e correr no apoio aos seus colegas. Em nome da missão. Do compromisso. Do que acredita. Eu me conforto porque o senhor sempre partiu sorrindo, meu pai. E prometendo voltar. Sempre retornando para me contar suas histórias incríveis. Suas e dos seus colegas, amigos, esses homens e mulheres que o senhor sempre chamou de irmãos.

Mas já lhe ouvi contar histórias tristes, meu pai. Já lhe vi cabisbaixo. Já lhe ouvi revoltado com a incompreensão dos que apenas batem sem conhecer nada, movidos por qualquer compromisso de bater no que lhes der na telha. Também lhe ouvi preocupado, decepcionado, irritado com gestores públicos que atoram sonhos e perspectivas, que lhe consideravam culpado pelas contas públicas mal gerenciadas, sendo que não foi o senhor, pai, que fez farra com os impostos do povo, que criou esquemas de propina e superfaturamento, quem deixou muita gente à míngua para festejar em lugares paradisíacos. Não, pai, nós sempre vivemos no limite das contas. Sua decepção é que esses mesmos, pais dos buracos onde volta e meia caímos, nunca souberam o que é se doar, se arriscar. Já lhe surpreendi num choro miúdo, pai, escondido, velado, mas às vezes sem se conter, escancarado, porque alguém que lhe era muito caro  não voltou. E o senhor falava dos filhos dele e eu pensava, pai, como não queria nunca lhe perder para o destino.

Acontece que o senhor foi, pai. Não terei chance, mais uma vez, de implorar para que fique. Não é de sua estirpe dar as costas à batalha. Não é de sua índole deixar um colega sem ajuda. Ninguém fica para trás, o senhor sempre diz. E todas as vidas importam. Então tudo o que eu quero, hoje, é que a gente possa estar junto amanhã, para contar histórias, rir juntos do nada, bater uma bolinha, jogar cartas, lamentar a má fase do nosso time e reclamar do frio. Ou nem dizer nada, de tão cansados, mas saber que estamos e estaremos sempre juntos. Acontece, pai, que estão me dizendo que desta vez foi o senhor que não voltou. E meu mundo parece perder o sentido. Mas ainda acredito nos seus valores. No seu heroísmo. E enquanto a lágrima beija meu rosto, pai, eu repito que estaremos sempre juntos, em nome de mais uma vida que importa, e muito.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895