A falta de esperteza dos espertos

A falta de esperteza dos espertos

Oscar Bessi

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Na última quinta-feira, foi deflagrada mais uma fase da Operação 404, que acontece em todo o país, coordenada pelo laboratório de inteligência cibernética do Ministério da Justiça e da Segurança Pública. O nome é uma referência ao código de resposta do protocolo HTTP para indicar ao usuário que determinada página da web não foi encontrada ou está indisponível no momento do acesso. Estudos das autoridades confirmam que a pirataria digital, grande alvo desta ação, causa um prejuízo de cerca de R$ 15 bilhões por ano só em impostos sonegados aos cofres públicos. Afora o que deixam de ganhar toda a já bem judiada cadeia de fomento à produção cultural neste país. Em Alvorada, um homem preso pela Polícia Civil  comandava uma série de sites de acesso a conteúdo pirateado. Apenas uma das páginas abrigava mais de 13 mil títulos. Ano passado, em São Paulo, a Polícia encontrou uma central digital onde, só no momento do flagrante, mais de 33 mil pessoas consumiam o conteúdo postado ilegalmente.

E se pensamos no prejuízo bilionário em termos de impostos, descartando-se, é claro, a nossa endêmica e infeliz corrupção que, avassaladora, suga os cofres públicos por todos os lados, é inevitável pensarmos também no sistema combalido de saúde pública, na segurança por que tanto clamamos, na educação que há séculos não avança grande coisa e, por óbvio, nessa pandemia que em outros lugares do mundo já não assusta tanto, mas que aqui parece longe de acabar. Dinheiro público pode transformar cenários ruins, se for bem administrado, é lógico. Mas aí chegamos ao outro lado da moeda. Se tanta gente lucra com a venda de produtos piratas é porque o mercado consumidor é gigantesco e promissor, não é mesmo? Vide o tema das drogas. O consumo irresponsável. E tantos outros males que afetam o cotidiano e roubam nossa tranquilidade. Eis a nossa nada honrosa, mas cultural, simpatia pela malandragem, pelo jeitinho, pelo nó no sistema e a desobediência de regras sem qualquer coerência de ser, mas incorretamente chamada de esperteza.

Ora, escritores, atores, diretores, técnicos, todos perdem muito quando a pirataria ganha. É um mercado de trabalho já tão difícil e que acaba ainda mais maltratado. Mas o pior não é isso. Ao se cadastrar em sites piratas, os usuários, que no momento se acham espertos, estão dando de bandeja seus dados para que criminosos apliquem golpes diversos. É como jogar um pedaço de carne aos lobos famintos e esperar seguir inteiro. Os golpes virtuais cada vez proliferam mais e a indústria do crime vê com bons olhos esta expansão. E as máfias, que lidam com roubos de carros, roubos de carga, tráfico de drogas e de armas, têm um novo filão a explorar. Sem sair de casa. E que cresce todos os dias na absoluta falta de esperteza dos espertos. Triste cenário. 


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