O amigo fiel

O amigo fiel

Oscar Bessi

publicidade

As buscas por Lázaro, verdadeira odisseia na crônica policial brasileira, se encerraram permeadas de episódios ímpares. Um deles foi a imagem que bombou nas redes sociais do mundo todo, onde um policial militar carregava nas costas o seu cão ferido, enquanto atravessava um córrego no meio da mata. “Ninguém fica para trás”, dizia a legenda. Tratava-se do pastor alemão Sauke, cão farejador da Companhia Independente de Policiamento com Cães, unidade integrante do Comando de Missões Especiais da Polícia Militar de Goiás. O cão passou por uma pedra que estava dentro d’água e lhe provocou um corte numa das patas traseiras. Sauke compunha uma equipe de cinco cães que contava, ainda, com a cadela Cristal, conhecida por ajudar nas buscas a desaparecidos após o trágico rompimento da barragem em Brumadinho.
Josi, minha mulher, tem uma paixão ardorosa por animais, creio que por influência de sua infância e juventude rural. Foi ela quem me pediu que escrevesse “um belo texto” sobre o que definiu ser uma cena emocionante, a imagem do policial e seu cão. Fico devendo o belo texto. Sou limitado. Mas também me emocionei, pois ao longo a vida vi muitos cães policiais em ação, assim como cavalos, e essa relação forte com seus colegas de farda humanos, os responsáveis por eles. Mas nunca trabalhei com um. Então perguntei a um grande amigo e parceiro de leituras literárias, o soldado Diogo, que serve no canil do 1<SC120,176> Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), sobre a sua relação com o seu cão Morfeu. É que além de acompanhar seus vídeos, treinando seu parceiro, percebo ali essa relação mútua de carinho e confiança, digna de quem decide correr todos os riscos do mundo juntos, um ao lado do outro. E eu nunca me esqueço desta frase do meu amigo: “Se, ao voltar de outra cidade, eu chegar em Porto Alegre e não for direto vê-lo, parece que o traí”.
Em resumo, Diogo define a relação entre um policial militar e seu cão de trabalho como não muito diferente do cão doméstico e seu dono: é preciso muito amor, cuidados e atenção. “A palavra que fala mais alto é filho, mas é claro, um filho diferente, pois precisamos fazer com que ele cresça, aprenda e seja forte, psicológica e fisicamente. Ser militar não é fácil para ninguém, com o cão não é diferente. Celebramos por cada aprendizado. Passamos juntos por todas as etapas do processo, conhecemos até a maneira como eles respiram, nos observam, nos cheiram e ouvem, assim como eles conhecem e acompanham até os nossos batimentos cardíacos. O resultado final se resume em contar com mais um irmão de farda dentro da viatura, os dois a arriscar a própria vida, se necessário, para proteger um ao outro. Eu confiaria minha vida na força dele sem pestanejar. E não confiaria tanto no resultado se não soubesse quem é esse carinha ao meu lado”, completa Diogo. E não precisa dizer mais nada. 


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895