Lázaro e os bárbaros

Lázaro e os bárbaros

Oscar Bessi

publicidade

Na Bíblia, Jesus ressuscitou Lázaro, cujo nome significa “aquele a quem Deus ajudou”, e este foi um de seus milagres mais espetaculares. No Brasil, mais de dois mil anos depois, seu homônimo é nada além de um criminoso vulgar, um assassino, que é ajudado por muitas mãos que estão bem longe de se apresentarem como bem intencionadas. E sua fuga, no interior de Goiás, era apenas para ser mais um dos infinitos e diários episódios de retrabalho e falta de inteligência dos nossos mandachuvas da caneta dourada e da arrogante distância do mundo real onde o povo, que sustenta tudo isso, vive. Por consequência, virou um dos mais espetaculares e tristes episódios da crônica policial brasileira nos últimos tempos. Mortos, feridos, dinheiro público gasto. E o medo da população provocando um quase êxodo nos lugares onde o criminoso passa.

Lázaro é apenas mais um dos tantos criminosos deste país que já estava preso. Que já havia cometido crimes bárbaros. Que já havia provado sua falta de adaptação e vontade de se adequar ao sistema organizado e civilizado de uma sociedade. Já havia deixado claro que não respeita a vida do próximo, que não quer saber de valores humanos, que gosta de matar, estuprar e torturar. É mais um sujeito que destruiu famílias pelo simples prazer de destruir, motivado por qualquer doença ou desvio muito seu (não sou psicólogo para avaliar e definir isto). E os policiais já haviam passado um imenso trabalho para prendê-lo no sertão baiano. Mas, o que aconteceu com esse assassino? Foi premiado com a progressão de regime para o semiaberto com pouco tempo de cadeia. E até “saidão de Páscoa” ganhou. As canetas que foram benevolentes ao conceder regalias ao bandido, foram igualmente implacáveis e cruéis com as vítimas que ele faria em seguida. Os responsáveis pela sua liberdade são também responsáveis pelos seus crimes. Ou não?

Helicópteros policiais, que poderiam estar ajudando a levar vacinas aos rincões do sertão, estão lá, agora, catando um bandido que aprendeu a se esconder bem, torcendo para que ele não mate mais inocentes como a família que ele destruiu. Penso no menino adolescente que tinha uma vida inteira pela frente e, graças à benevolência do nosso falho sistema, foi brutalmente morto por um maníaco. Penso no sofrimento da pobre mulher que, além de ver seu esposo e seus filhos serem mortos, foi espancada, torturada e estuprada antes de morrer. Um sofrimento gigante que ela não merecia, que ninguém merece. Mas é o tipo de coisa pela qual todos nós podemos passar, a qualquer momento, em qualquer lugar do nosso país, enquanto certos cidadãos, em sua arrogância bárbara, se negarem a entender como funciona o mundo real, não compreenderem o trabalho dos policiais para prender um bandido de alta periculosidade, e muito menos se colocarem no lugar das vítimas que sofrem as dores das perdas e das violências que se repetem a todo momento. 


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895