As mortes que não importam

As mortes que não importam

Oscar Bessi

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É difícil, para quem está acostumado a lidar com as mazelas da nossa sociedade e conhece muito bem os verdadeiros patrocinadores do caos, aceitar que algumas mortes são consideradas mais importantes do que outras, merecem mais comoção, indignação, declarações de afeto e por aí vai. É como se houvesse uma hierarquia entre os humanos. Mas nesta hierarquia, nem sempre aquele que cultiva ou defende valores como respeito, renúncia, nobreza e dedicação ao próximo estão num patamar mais elevado. Ao contrário. Idolatrados são aqueles que pautam suas condutas pelo ego, pelo domínio e foco ao seu umbigo e fim de assunto. Que até podem falar coisas bacanas, mas estas coisas bacanas nem são eles que falam, geralmente é outro alguém que apenas imita ou repete de forma mecânica, mas que servem para alimentar fortunas nesta roda interminável do consumismo que nos naufraga no cotidiano.

Um policial morreu ao intervir num assalto dentro do mercado onde comprava alimentos para a sua família. Ele morreu defendendo gente que nem conhecia, cumpriu à risca seu juramento de honrar a defesa da sociedade mesmo com o sacrifício da própria vida. Mas nem a comoção de um filho pequeno chamando o pai sobre o caixão deu tanta repercussão, ou chamou tanto a atenção nas redes sociais como o rapper que após uma farra regada a fortunas gastas, álcool, drogas, traição conjugal e prostituição, num acesso de loucura total após tantos passos na estrada dos excessos, caiu da janela. Quem juntou multidões em seu caixão? Imensas aglomerações mesmo em tempo de pandemia? Por acaso foi o homem que deixava a família em casa para ir proteger o coletivo onde vivia, inclusive contra os males de descuidos relativos ao coronavírus? Não, né? Foi o sujeito que morreu na farra, gastando a fortuna que seguidores, indiferentes aos males que atingem o mundo ou o que aflige os outros, gastaram para consumir seus produtos massificadores que não exigem muito esforço mental.
O Correio do Povo noticiou a ação da Guarda Municipal de Porto Alegre, acabando com um baile funk na zona Norte. Pessoal sem máscara, nem aí para a pandemia e o caos que está acontecendo na saúde pública por conta desses irresponsáveis. Quem os lidera, inspira e conduz? Está mais do que na hora de pensarmos, em nossos convívios, sejam familiares, comunitários ou de trabalho, sobre o que permitimos e achamos normal para nossos jovens. E quem os inspira e motiva. Não adianta contestar todo um sistema, e governos, se não conseguimos fazer a nossa parte, se não temos uma educação básica suficiente que nos permita ao menos entender que a coisa, hoje, é muito séria, e precisa de atitudes individuais somadas no coletivo. Dá a impressão que damos, como sociedade, de ombros para as mortes. Só merecem destaque quando geram lucro, mesmo que nocivo, e justo para quem nem se importa com o que acontece com os outros.


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