Pela primeira vez em 66 anos, escritoras foram maioria na Feira do Livro de Porto Alegre

Pela primeira vez em 66 anos, escritoras foram maioria na Feira do Livro de Porto Alegre

Entre os quase 100 autores participantes da edição de 2020, 56% foram mulheres

Mulheres ganharam espaço de destaque na Feira do Livro

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Neste ano, a Feira do Livro de Porto Alegre, um evento já tradicional e querido no Rio Grande do Sul e no Brasil, torna-se também histórico. Inovador e acessível ao mundo, esta edição foi inteiramente remota e contou com participação majoritária de escritoras mulheres. 

A 66ª edição, por conta da pandemia de Covid-19, ocorreu por meio de transmissões ao vivo e, por conta do apreço à cultura e à diversidade, apresentou temáticas como igualdade, feminismo e antirracismo. Pela primeira vez, em 66 anos de existência, havia mais escritoras do que escritores.

Na programação realizada entre os dias 30 de outubro e 15 de novembro, 56% dos quase 100 autores convidados foram mulheres. De acordo com Lu Thomé, que atuou na curadoria das atividades culturais, os esforços se concentraram em tornar o evento múltiplo e versátil. Por isso, além da preocupação em manter diferentes perfis de convidados, suas falas também foram diversas. “Houve o cuidado de manter a multiplicidade dos temas e a multiplicidade das abordagens”, garante a curadora. 
 
Segundo Fernanda Dora Luzzato, jornalista responsável pela assessoria de imprensa da Feira, a questão de gênero foi “um dos guarda-chuvas” da edição deste ano, e a ótima adesão do público surpreendeu a organização. “Até esperávamos mais resistência, mas a forma como tudo foi tratado, sob o viés da literatura como tema central, facilitou esse entendimento”, explica.

Dentre os temas trazidos pelas autoras, o feminícidio foi pauta na atividade  “Uma realidade violenta”, apresentada pela escritora Patrícia Melo e mediada pela professora Carol Becker e pela também escritora Rochele Bagatini. Atividades como essa tiveram o objetivo de, segundo Fernanda Dora, dar voz às questões de gênero. Além disso, com a virtualização, a Feira teve sua primeira possibilidade de acesso aos presídios. A Penitenciária Feminina de Rio Grande transmitiu todas as atividades ao vivo às detentas. 

Lu Thomé garante que a modalidade remota trouxe a vantagem de uma Feira do Livro mais abrangente e com participações internacionais. Dentre as escritoras, cita a espanhola Rosa Montero, que participou da atividade “As sintonias da vida e da morte”; as escritoras argentinas Mariana Enríquez e Ariana Harwicz, que compuseram a atividade “A estranheza familiar de nós”, e a escritora chilena Isabel Allende, que abriu a Feira do Livro de Porto Alegre diretamente de sua casa em San Rafael, na Califórnia. 

Sobre mulheres

Segundo Mariam Pessah, ativista feminista, poeta, escritora, organizadora do Sarau das Minas da cidade de Porto Alegre e participante do coletivo Mulheril das Letras, é importante que mulheres ocupem espaços como esses para trocar sobre vivências autênticas. “Eu acho muito legal ler um livro de Galeano sobre as mulheres e ver o que ele sempre tem a dizer de nós, mas eu acho muito mais interessante ler o que nós mulheres temos para dizer, até porque somos muito diferentes”, explica.

Sobre a Feira do Livro, Mariam destaca a participação de Lilian Rocha na mesa “Para celebrar Oliveira da Silveira”, junto do patrono Jéferson Tenório e do escritor Antonio Hohfeldt. Lilian também é participante do Mulheril das Letras, assim como diversas escritoras, editoras, ilustradoras, designers, livreiras e profissionais das Letras do Brasil e de Portugal desde a fundação do grupo em 2017, pela escritora Maria Valéria Resende.

Mariam diz ter se sentido representada pelas colegas que participaram e contemplada pelo formato remoto. “Eu achei realmente muito emocionante ver a abertura com Isabel Allende”, afirma. A ativista também aborda a necessidade de diversificar e ampliar as vozes da literatura produzida por mulheres. “Quando se fala em mulheres, no plural, aí estão entrando as mulheres indígenas, as lésbicas, as negras e também as mulheres negras e lésbicas”, exemplifica Mariam.

Foi com a intenção de interseccionar e diversificar essas vozes que um grupo de mestrandas e doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) organizou, dessa vez na Feira do Livro, a segunda edição do evento Mulheres com a Palavra. O evento propõe diálogos empoderados com acesso exclusivo para pessoas não binárias.

As colegas Ana Luiza Furlanetto, Andrezza Postay, Geysiane Andrade, Virginea Novack e Vitoria Vozniak estiveram à frente da organização e, entre os dias 11 e 13 de novembro, trouxeram diversas mesas temáticas e apresentaram seus próprios trabalhos para as 300 inscritas. “A ideia é entender essa marcação espectral, plural e complexa do que é ser mulher”, explica Virgínea. Todas as organizadoras concordam com a importância de ler e estudar mulheres e a necessidade de vê-las representadas na Feira do Livro de Porto Alegre. “A gente quer se escutar e aprender com essa troca”, diz Vitória.

Sobre futuro

Além da questão de gênero referente à participação majoritária de escritoras, atividades sobre feminismo e transmissão ao vivo às mulheres apenadas, Fernanda Dora vê como acontecimento marcante a escolha do escritor e professor Jeferson Tenório como patrono da Feira do Livro. Ele tem posicionamentos e trabalhos que perpassam a representatividade e é a primeira pessoa negra e também a mais jovem a ocupar esse espaço, aos 43 anos. 

Por isso, Lu Thomé e Fernanda Dora garantem que existe o empenho de seguir trazendo diversidade à Feira do Livro, tanto em sua programação e na escolha dos próximos patronos ou patronas. Além disso, segundo a assessora, essa movimentação veio para ficar. “A Câmara Rio-Grandense do Livro quer dar continuidade a esse trabalho e ampliá-lo cada vez mais”, ressalta.

Lúcia Centeno / ESPM 


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