Rui Gonçalves: um ícone da Feira do Livro

Rui Gonçalves: um ícone da Feira do Livro

Tradicional livreiro da Palmarinca faleceu em fevereiro e deixou um legado de amor pela leitura

Livreiro Rui Gonçalves morreu ao cair do telhado de sua loja

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Ninguém podia imaginar, mas o ano de 2019 seria o último em que o corredor da rua 7 de Setembro, na Praça da Alfândega, receberia Rui Gonçalves, dono da Livraria Palmarinca. O livreiro saiu das páginas do presente para a história ao cair do telhado da sua tradicional loja que “recebia nove entre dez intelectuais da cidade”, como citava um recorte de jornal próximo à entrada. O fatídico acidente aconteceu em fevereiro deste ano. A livraria, que completou 48 anos, esteve sempre presente no mesmo lugar durante a Feira do Livro de Porto Alegre: a banca 65. Gonçalves era um dos livreiros mais antigos e queridos do evento.

“Lancei meu primeiro livro ‘A miséria do cotidiano’ (Artes & Ofícios) na Palmarinca, em 1991’’, relata Juremir Machado, escritor, jornalista e colunista do Correio do Povo. As tardes de autógrafos eram comuns, já que Rui Gonçalves sempre abria as portas para autores iniciantes e permitia que eles lançassem suas obras no local. Segundo Juremir, o Rui é “um personagem do imaginário cultural de Porto Alegre” e “ficava sempre na mesma posição na Feira do Livro, como se fosse um guardião das obras”. A livraria reunia diversos profissionais da comunicação, que discutiam e conversavam sobre política, questão essa que motivou sua fundação em 1972, época da Ditadura Militar. 

Nesses encontros diários, Rui Gonçalves criou amizades para a vida. O professor de Literatura, Luis Fischer, por exemplo, conhecia Rui desde o início dos anos 1970. “Sempre, antes de começar a Feira do Livro, eu já deixava anotadas quais obras queria comprar. Chegava lá, mostrava para o Rui e ele, quase sempre, já tinha o livro em seu acervo”, relembrou Fischer, destacando a simpatia do livreiro, que dava dicas e conversava com todos os visitantes. 

“Uma figura ímpar no ramo do livro”. É assim que Isatir Bottin Filho, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) e, por vezes, vizinho de banca de Rui, o define. "Ele foi um grande livreiro, profundo conhecedor das obras que comercializava. Lia e as indicava com muita propriedade. Tinha o prazer em atender pessoalmente todas as pessoas, esse era o seu diferencial. Sua banca tinha um layout aberto que facilitava o contato e o acesso", ressalta. Isatir também conta que a banca era muito bem frequentada, tanto por amigos de Rui quanto por personagens da vida pública. 

Em tempos de eBooks, audiobooks e acesso fácil, a livraria Palmarinca mantinha-se aberta pelo tradicionalismo. Em 2013, Rui afirmou que "livraria hoje é um negócio inviável". Segundo ele, as coisas estão mais visuais e, por isso, não existem mais os “intelectuais do sovaco” que costumam carregar os livros por baixo do braço. 

A Feira do Livro de Porto Alegre passou por mudanças que, provavelmente, influenciarão as próximas edições, como bate-papos e lançamentos de obras transmitidos pela internet. No entanto, na possível volta do evento ao modo presencial, ter outra livraria no lugar da Palmarinca será, no mínimo, estranho. A banca 65, que por tanto tempo teve um só dono, mostra a relevância do homem que faleceu tão cedo. Os amigos e conhecidos de Rui concordam que o motivo pelo qual a livraria teve tanta longevidade foi porque seu fundador criava laços com os clientes, debatia e incentivava a leitura.

Fernando Costa / PUCRS
Henrique Abrahão / Unisinos
Kainan Mews / UniRitter
Kassiane Michel / Universidade Feevale


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