Os leitores da Capital

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Pesquisa aponta que mais da metade dos leitores porto-alegrenses preferem as livrarias físicas

Porto-alegrenses lêem, em média, 4,61 livros por ano

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Visitar os expositores da Feira do Livro de Porto Alegre foi a tradição primaveril dos últimos 65 anos para os moradores da Capital. E o tradicional passeio pela Praça da Alfândega destaca a presença gaúcha nos eventos culturais: a quantidade de porto-alegrenses que participam de feiras literárias é quase duas vezes maior que a média nacional. A 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) e pelo Itaú Cultural, apresenta o perfil e o comportamento do leitor brasileiro, além de trazer informações individuais sobre cada capital brasileira.
 
Em números absolutos, a pesquisa aponta que mais de 375 mil porto-alegrenses foram a pelo menos um evento literário por vontade própria no último ano, o que corresponde a 27% da população da Capital. Em relação ao restante do Brasil, o número cai para 14%. Outro aspecto positivo para os pequenos livreiros é a preferência pelos estabelecimentos físicos: 52% dos entrevistados compram livros em lojas físicas - 17% a mais que a média nacional. A pesquisa, publicada em setembro, mostra que o porto-alegrense tem lido, em média, 4,61 livros por ano, menos que o resto do país, que lê 4,95 obras. O mesmo estudo revela que a capital gaúcha tem 724 mil leitores, igualando-se aos 52% da média nacional.
 
De acordo com Ernani Mügge, professor e doutor em Literatura brasileira, portuguesa e luso-africana, a Feira do Livro de Porto Alegre tem influencia na pesquisa. Para explicar a discrepância entre os número elevado de participantes de eventos literários em relação ao baixo consumo de obras, Ernani afirma: “A leitura sofre concorrência de mídias sociais, filmes. Talvez Porto Alegre ofereça mais opções culturais e de lazer”.  Proporcionalmente, a capital gaúcha só perde para Belém (PA) em números de visitantes em eventos literários. Mügge, que atua no PPG de Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale, aponta que devemos considerar, também, as diferenças regionais e as relações de proximidade entre as produções e os leitores.
 
A cara do leitor
 
A pesquisa mostra que o leitor porto-alegrense tem um perfil bem definido: 59% é do sexo feminino, 42% tem 40 anos ou mais, 47% pertence à classe C. Do total, 65%, não estão estudando e mais da metade, 54%, não comprou livros nos últimos três meses. 
 
Nely Durand Castro, de 87 anos, faz compõe esse perfil desde os anos 80. Ela lembra que começou a frequentar a Feira do Livro de Porto Alegre em 1987 e desde então não parou de ler. Na quarentena, leu cinco livros que já estavam na estante de casa. Os favoritos são os espíritas. Para Nely, a modalidade digital tirou o encanto do evento e espera que a feira possa voltar logo ao espaço que sempre ocupou. “Antigamente a gente marcava de se encontrar, passeava pelas bancas. Não dá pra fazer isso na internet”.
 
Comparativo nacional
 
Em dados nacionais, o Brasil perdeu leitores desde a 4ª edição da pesquisa, publicada em 2015. O número de leitores, considerando aqueles que leram pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos últimos três meses, caiu 4% em relação ao levantamento anterior. Mesmo com uma população avaliada maior, o Brasil de 2019 perdeu 4,6 milhões de leitores em relação ao ano de 2015. 
 
Apesar da queda no número de leitores, o setor editorial brasileiro teve, em 2019, um faturamento 10,7% maior que em 2018, conforme a série histórica da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e realizada pela Nielsen Book. Embora o crescimento seja significativo para quase todos os subsetores do mercado editorial, a categoria CTP (livros científicos, técnicos e profissionais), em queda desde 2015, sofreu um decréscimo de 8,2% em vendas.
 
Jean Luca Coimbra / Universidade Feevale

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