Desconhecimento de edição virtual e baixa adesão podem impactar vendas da Feira do Livro

Desconhecimento de edição virtual e baixa adesão podem impactar vendas da Feira do Livro

Apesar de democratizar o acesso, o formato on-line pode ter passado despercebido pelo público

Em um levantamento feito pela reportagem, que sondou 95 pessoas, 55% não sabiam da realização da Feira do Livro durante a pandemia

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A 66ª Feira do Livro de Porto Alegre se aproxima do seu encerramento, que ocorrerá neste domingo (15). No entanto, apesar da divulgação em veículos de comunicação e redes sociais, muitas pessoas não têm conhecimento do evento em formato on-line neste ano. É o que mostra o levantamento feito pela reportagem, que sondou 95 pessoas, das quais 53 (um total de 55%) não sabiam de sua realização durante a pandemia do novo coronavírus. Mesmo o público ciente do evento demonstrou baixo interesse em fazer as compras literárias de modo virtual. Essas circunstâncias podem ter impacto no faturamento das bancas. O levantamento das vendas só será disponibilizado a partir desta segunda-feira.

O estudante Rafael Mairesse, de 20 anos, desconhecia que a Feira estava ocorrendo em um formato diferente. Ele frequentava com a família e amigos, mas por causa da pandemia, achou que não aconteceria. “Eu acho que talvez como o pessoal não está muito interessado em ir na Feira do Livro, por causa da pandemia, ninguém se tocou muito que iria acontecer”, reflete. O jovem também afirma que a Feira nunca teve uma comunicação muito efetiva com ele e que sempre ficava sabendo da realização através de amigos e, algumas vezes, por compartilhamentos no Instagram - neste ano, no entanto, afirma que “não chegou nada”. 

Além disso, para Rafael, o formato de vendas on-line tira uma parte importante da experiência de ver as bancas e andar pela praça. “Confesso que não sei quanto às promoções, mas acho que seriam o único atrativo de uma Feira do Livro on-line, porque hoje há muito serviço de compra de livro on-line que é bem barato, por exemplo, a Amazon”, pondera. “Então, dependendo do preço e das opções, se tiver alguma opção muito diferente, eu acho que valeria a pena”.

Juliana Santos, mestranda da Universidade Estadual de Londrina, de 34 anos, também é uma das pessoas que gostava de frequentar a feira, mas que não sabia da sua realização virtual. Nos outros anos, ficava de olho nos veículos de comunicação para confirmar a data, que sabia ser próxima ao final do ano. No entanto, apesar de seguir vários jornais nas redes sociais, não foi informada sobre o evento. “Simplesmente não apareceu no meu algoritmo e também não busquei informações, entendendo estar cancelada devido à pandemia”, ressalta. 

Apesar disso, gostou de saber que o formato on-line foi adotado. Devido à restrição de gastos, no entanto, a compra de livros nesta edição não está em seus planos. “Adotei um leitor eletrônico e os e-books são mais em conta, além de não precisar higienizá-los no recebimento. Se houver ofertas de e-books, posso considerar a compra de um ou outro exemplar”. 

O caso de Juliana é similar ao de outras pessoas que, mesmo sabendo da realização normal da Feira, optaram por não comprar. “Os livros que eu queria estavam caros”, afirma a professora Patricia Borges Oliveira, de 45 anos, que costumava ter a Feira como um passeio garantido nesta época do ano. “Olhei várias bancas, até gostei, ficou bem estruturado. Mas não é a mesma coisa, é diferente de podermos ir olhar os livros, sem contar que foram poucas as bancas que disponibilizaram esse formato.”

Entre as poucas pessoas que a reportagem localizou que sabia da ocorrência da Feira e chegou a fazer compras está a estudante Júlia Ozorio, de 20 anos, frequentadora assídua do evento. A jovem gostou do formato on-line, mas ainda prefere o presencial. “Gostava muito de frequentar a Feira do Livro, de garimpar, escutar a história dos outros”, conta. No início, Júlia não se sentiu motivada a participar, mas as matérias veiculadas na imprensa, explicando como funcionariam os garimpos, a incentivaram. “Sabendo do evento eu já estava, só que eu não estava muito motivada a comprar, porque eu não sabia que teriam promoções”, relata.

Nesta nova edição, Júlia também garimpou até encontrar o livro que queria - Brasil, Construtor de Ruínas, de Eliane Brum -, mas quase não o comprou. “Esse ano, só comprei um livro porque eu sempre participo e era um livro que eu queria há muito tempo. Estava na promoção, e eu acho que, nesse momento, a gente tem que fazer o que consegue e pode para estar fortalecendo a cultura local”, disse. Apesar disso, não comprará outros livros, devido à instabilidade financeira e à necessidade de economizar durante a pandemia.

O impacto nas vendas

No ano passado, a Feira do Livro de Porto Alegre registrou uma queda de 4,5% nas vendas, com 226.971 exemplares comercializados. Neste ano atípico, em que o formato da feira é on-line e as vendas estão sendo realizadas nos próprios sites das bancas, a estimativa de comercialização é uma incógnita.  Das 100 bancas, em média, que participaram das edições anteriores da Feira, apenas 57 estão presentes no meio virtual com e-commerce. Os livreiros que não tinham lojas digitais receberam orientações para desenvolver seus próprios sites, por meio de uma parceria entre a Câmara Rio-Grandense do Livro e o Sebrae.

A Editora AGE teve um aumento significativo nas vendas pelo site. Rudimar Bernardes, gestor comercial da empresa, acredita que o motivo seja pela maior divulgação proporcionada pela Feira do Livro nas redes sociais. Apesar disso, avalia que o impacto será grande. “Vamos vender bem menos que na Feira do Livro na Praça da Alfândega, que nós, livreiros, chamamos de Natal”, comparou. 

Segundo Clô Barcellos, proprietária da editora Libretos, quando a Feira era realizada presencialmente, os lançamentos e os saldos eram o que alavancavam as vendas. “Este ano houve uma inversão disso. Os lançamentos continuam sendo os mais vendidos, mas os saldos não, porque eles não estão expostos”, comenta. Com as vendas até o momento, a editora está com um faturamento de 17% em comparação ao ano passado. “Nós estávamos prevendo de 10 a 30% de faturamento em relação às vendas de 2019. Se fosse 30% do ano passado, nós já estaríamos comemorando, mas não conseguimos ainda chegar lá.”

Muitas pessoas não estão sabendo da Feira ou se adaptando ao formato on-line das vendas. No entanto, ainda há tempo de participar e garantir os saldos literários. É o caso da estudante Giovanna Parise, de 20 anos, que apesar de achar um pouco confusa e nada intuitiva a venda on-line, ainda vai procurar promoções. “Eu entendo que não tem outro jeito nesse ano, uma situação totalmente atípica. Mas eu quero comprar, eu tenho esse interesse. Vou ver se eu consigo um tempinho e vou garimpar.”

Fernanda Polo / Ufrgs
Nicole Marazini / Ufrgs


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