Novos hábitos: a influência da pandemia nas escolhas literárias

Novos hábitos: a influência da pandemia nas escolhas literárias

As escolhas do público da Feira do Livro de Porto Alegre apresentaram alterações relacionadas ao período que vivemos, reforçando a procura pelos gêneros de ficção, autoajuda e estilo de vida

As mudanças trazidas pelo isolamento social e a realidade de milhares de mortes diárias afetaram psicologicamente diversas pessoas, chegando até mesmo a alterar hábitos como a leitura

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A pandemia do novo coronavírus impactou a vida de diversas maneiras. Em uma tentativa de parar o contágio e salvar vidas, as pessoas se viram obrigadas a ficar em casa - motivo pelo qual a 66ª Feira do Livro de Porto Alegre está ocorrendo virtualmente. As mudanças trazidas pelo isolamento social e a realidade de milhares de mortes diárias afetaram psicologicamente diversas pessoas no mundo, chegando a alterar rotinas e hábitos - como a leitura. Muitas pessoas aproveitaram esse tempo em casa para retomar ou iniciar leituras, aventurar-se por novos gêneros, escapando aos acontecimentos mundiais, ou fugir daqueles que poderiam lembrá-los da dura realidade.

A procura dos leitores nesta nada usual edição da Feira refletiu essa nova realidade. Segundo informações da assessoria de imprensa da Feira do Livro, os títulos mais vendidos até este momento estão vinculados aos lançamentos e autores presentes na programação, como o patrono Jeferson Tenório. No entanto, neste ano, as escolhas do público também apresentaram alterações relacionadas ao período que vivemos. Enquanto alguns buscam uma fuga da realidade, outros buscam aprender a conviver com ela – o que reforçou a procura pelos gêneros de ficção, autoajuda e estilo de vida.

Segundo Milton Ribeiro, proprietário da Livraria Bamboletras, os livros mais vendidos até o momento, seguindo a tendência anual, foram O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, patrono da Feira, e Os Supridores, de José Falero. Ribeiro também ressalta que é possível perceber uma mudança nos livros procurados pelo público. “Os livros procurados cresceram de tamanho. As pessoas estão aproveitando o maior tempo que passam em casa para ler aquele calhamaço que não deu para ler nos ‘tempos normais’. Em relação aos gêneros, afirma que há uma procura maior por livros de Gastronomia, o que atribui à vontade dos leitores de se aventurar por novos pratos.

A Livraria Isasul também registrou a tendência de busca pelos autores que participaram de alguma forma da feira ou foram citados por outros autores em lives. Em relação a uma mudança nos gêneros mais vendidos, Simone Bottin Pereira, sócia da livraria, salienta que houve um destaque à força feminina e à valorização da diversidade. “Quanto ao gênero, sim, muita diversidade e feminismo dando ênfase às mulheres como autoras.” Simone afirma ainda que o volume de vendas pode ser considerado muito bom para um primeiro ano de feira virtual. “Claro que não podemos comparar à presencial, na qual o volume é grande, devido à exposição e visibilidade”, pondera.

Os leitores comprovam essa mudança de hábitos. Stéfany Cyganski, estudante de Administração, de 22 anos, acredita que suas escolhas literárias foram em parte impactadas pela pandemia. “Ela me fez ler bastante sobre estilo de vida, me permitiu ler mais coisas por ter mais tempo e assim arriscar novas leituras”, afirma, apontando o livro Ikigai, sobre propósito de vida, como exemplo. Stéfany, que gostava de autoajuda e romances, duplicou a quantidade de livros lidos e passou a se dedicar à literatura feminista, profissional e sobre meditação e métodos alternativos de cura – como thetahealing e ho’oponopono.

Joana Mattia, gaúcha de 22 anos que estuda Turismo e Gerência em Londres, na Inglaterra, mas voltou ao Brasil devido à pandemia, também é um exemplo. “Eu sou uma pessoa de fases, mas a pandemia influenciou na questão de que, nesses últimos meses, minha preferência de leitura foi mais voltada a livros de autoajuda, mudança e criação de hábitos, espiritualidade”, afirma. Para a jovem, o fato de estar muito tempo em casa pode ter influenciado essa mudança. “Na vida normal, associava casa com descanso e o momento de descarregar da correria do dia. Com a pandemia, a realidade virou outra, a casa já não era mais só descanso, e sim a correria.” Com isso, a estudante teve de se reestruturar e foi em busca de livros que pudessem ajudar a encontrar um equilíbrio entre casa, trabalho, estudo e descanso.

Já na Livraria Traça, a maior parte dos livros vendidos foram de ficção e autoajuda, disponíveis nos “balaios” virtuais, além dos livros do patrono. Em relação a mudanças, Carmen Menezes, proprietária da livraria, afirma que fica visível no volume.  “Não é o mesmo volume de feira, nem perto”, lamenta. No entanto, ressalta que o romance policial tem se destacado como gênero, assim como a ficção como um todo. 

Quem tem acompanhado essa tendência é a leitora Flávia Cunha, de 43 anos, jornalista e produtora cultural. “Comecei a ler compulsivamente romances policiais. Suspeito que é porque existe uma resolução do problema no final do enredo, ao contrário da pandemia, que não vemos um desfecho próximo”, interpreta. Flávia sempre leu bastante - uma média de quatro livros por mês -, mas percebe uma maior disposição para romances policiais, gênero que não costumava ler tanto e alternava com outros, como biografias, romances em geral e contos brasileiros. O novo interesse influenciou a compra do livro 1935, do autor local Rafael Guimaraens, da Editora Libretos, que conta a história de um romance policial que se passa em Porto Alegre.

 Por trás da mudança

No entanto, os impactos da pandemia não foram sentidos por todos. O professor de Literatura e Língua Portuguesa Maiquel Röhrig, frequentador assíduo da Feira do Livro, conta que seus hábitos literários e os de sua esposa permaneceram os mesmos e explica os motivos que podem levar algumas pessoas a mudá-los. “Mais tempo livre, mudança na vida. Em geral, escolhemos os livros por causa de três motivos: obrigação por causa da escola, tempo livre ou porque nos identificamos com a obra. Acho que, num momento em que a vida está estranha, é normal procurarmos outros tipos de leitura.”

A psicóloga Maricléia Roman explica: “Tudo aquilo que vem sem uma certeza, sem um aviso prévio, sem que possamos saber como vai ser depois, desperta internamente muitos sentimentos, como medo, insegurança, ansiedade e assim por diante. Esses sentimentos gerados fazem com que desenvolvamos novos hábitos."

Maricléia também analisa a mudança nos hábitos em relação à leitura, ressaltando que é como uma válvula de escape, uma forma de sobrevivência psíquica. “Muitas pessoas procuram livros de autoajuda como uma forma de apoio para pensar em outras coisas, para planejar, para conseguir se sentir melhor. Em compensação, tem outras pessoas que optam por obras de gastronomia, empreendedorismo e investimento para alternativas de crescimento”, revela a psicóloga.

São diversas as formas encontradas para lidar com a realidade em um momento inesperado como uma pandemia global, para a qual ninguém estava preparado. Independentemente do gênero escolhido ou dos novos hábitos adotados, a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre continua comportando espaço, mesmo que virtualmente, para todos aqueles que desejam mergulhar e realizar novas descobertas no universo literário.

Fernanda Polo / Ufrgs
Jaqueline Witter / UFSM-FW


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