Instituto de Educação, tapera na Redenção

Instituto de Educação, tapera na Redenção

Escola continua abandonada

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      Na infância, eu tinha medo de taperas. Era um temor real e simbólico. Sofria com as portas batendo. Era a imagem do desemparo. Como era triste ver um lugar onde crianças riam morrer no abandono. Quando caminho na Redenção, devidamente mascarado, sou tomado de tristeza ao ver o abandono do belo prédio do Instituto de Educação Flores da Cunha. Uma tapera grandiosa em pleno centro de Porto Alegre. Durante dez anos, peguei ônibus todas as manhãs em horário de aula. Ficava embriagado com a alegria transbordante dos adolescentes. Cheguei a contar a história de um menino e uma menina que eu encontrava no São Caetano. Nunca soube os nomes deles. Eram bonitos e felizes. Sumiam entre os colegas enquanto eu seguia grudado ao vidro rumo ao trabalho.

      Como é possível que um prédio tão importante fique atirado por tanto tempo? Escuto isto e aquilo. Nada me convence. Chegará o dia em que se proporá a privatização do espaço ou parceria público-privada, que é o eufemismo de privatização por tempo determinado. Ou será que já existe o projeto e não fiquei sabendo? Li que as obras serão retomadas ainda neste mês e que a escola será um centro de referência. Eu só tenho visto a tapera. Já se vão cinco anos. Olho a parte dos fundos e sinto o meu peito se apertar. Ouço ruídos do passado: janelas e portas batendo, o vento assobiando entre vãos que engolem lembranças. Os alunos andam espalhados por outros locais e diz-se que nem seria preciso voltar. Haveria espaço de sobra em outros prédios públicos.

Digo apenas que meu coração não se conforma. Sou contra colocar qualquer coisa que não seja árvore na Redenção. Nem pensar em polo gastronômico, bar ou qualquer comércio. Só o Instituto Estadual me convence ali. Sei que a Redenção faz crescer olhos cheios de cifrões. O imenso prédio parece o casco de um navio enferrujado. Agiganta-se ao cair das tardes como os despojos de um elefante. Chego a ouvir risos de guris e gurias quando passo ali. Fico nostálgico do que não vivi. Talvez as promessas sejam cumpridas e surja uma pérola. Ando cético.

Li que o governo pretende “dar um novo destino ao local”, fazer um Centro de Formação de Professores e um Museu Interativo da Educação. Não basta o interativo para me convencer. Sei que outros desabam diante dessa palavra tão moderna e envolvente. Eu preferia ver novamente a gurizada colorindo aquilo tudo a cada novo dia. Por que fazer outra coisa? Eu gostaria de ter estudado ali. Pode existir em Porto Alegre lugar mais lindo para uma escola? Chego a mudar meu itinerário para não sofrer com a imagem da tapera. Que solidão! Serei categórico: há lugares que não podem mudar. Fazem parte da alma de uma cidade.

Sou conservador? Tradicional? Velho? Tudo isso e o contrário. Não me contento com pouco. Por mim teria plebiscito para quase tudo. Vender ou não patrimônio público? Construir ou não novos estádios para clubes do nosso coração? O que fazer do Instituto de Educação General Flores da Cunha? Taperas fazem pensar que o abandono cresce como erva daninha.


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