Harari errou ou acertou?

Harari errou ou acertou?

Previsões de um historiador do futuro

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      O historiador israelense Yuval Harari virou celebridade mundial publicando livros. Uma façanha. Ele pratica a provocação erudita, o texto fácil de ler e as projeções (ou previsões?) arriscadas. Em “Homo Deus, uma breve história do futuro” (2015) ele abre dizendo que os três maiores males da história da humanidade estão controlados: fome, pestes e guerras. Errou ou acertou? Segundo ele, o açúcar mata mais atualmente do que a pólvora. Certo ou errado? Num subcapítulo inicial, “Armadas invisíveis”, ele conclui que “a era na qual a humanidade se via impotente diante de epidemias naturais provavelmente chegou ao fim”. Foi salvo pelo advérbio?

      Harari relembra as piores pandemias. A Peste Negra, ou bubônica, começada em 1330, matou entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas. Florença perdeu 50 mil dos seus cem mil habitantes. Ninguém sabia o que fazer: “Até a era moderna, a culpa pelas doenças foi atribuída ao ar viciado, a demônios maliciosos ou a deuses raivosos; não se suspeitava da existência de bactérias e vírus”. Os espanhóis trouxeram a varíola para o México em 1520. A doença chegou com o escravo Francisco de Eguía. Em dois meses, morreu um terço dos 250 mil habitantes de Tenochtitlán. A esquadra espanhola chegou ao México, que contava 22 milhões de pessoas, num mês de março. Em dezembro, sobravam apenas 14 milhões. Sessenta anos depois, eram só dois milhões. Essa foi a maior contribuição europeia para o Novo Mundo.

      No Havaí, a turma do britânico James Cook introduziu doenças que reduziram a população de meio milhão de pessoas para 70 mil. A gripe espanhola dizimou 5% da população mundial, algo em torno de 50 milhões de pessoas. Se não tiveram sido cem milhões. Só na Índia foram 14 milhões. Harari sustenta que hoje o problema é o excesso de peso, não a fome, e que se morre mais de suicídio que de guerras: “Tanto a incidência como o impacto das epidemias decresceram dramaticamente nas últimas décadas”. A ciência conseguiu controlar rapidamente, na medida do possível, a SARS, o Ebola e até a AIDs. Harari alertava para o surgimento de novas doenças por mutação de patógenos que “pulem dos animais para os homens”. Acertou em cheio? Qualquer pandemia passou a ser “uma indesculpável falha humana”?

      “A biotecnologia nos capacita a derrotar bactérias e vírus, porém simultaneamente faz com que os próprios seres humanos se tornem uma ameaça sem precedentes”. Acerto ou erro? Não é a medicina humana que garante a salvação com a descoberta, no caso do Covid-19, de várias vacinas em oito meses? Toda epidemia é política? Harari afirma que as “grandes epidemias vão continuar a por a humanidade em perigo no futuro se, e somente se, a própria humanidade as criar, a serviço de alguma ideologia brutal”. Ler Yuval Harari tranquiliza ou apavora? O inimigo é invisível ou bem humano? Se a humanidade quiser, com os meios disponíveis, vacina a população mundial inteira em seis meses em esforço de guerra. Por que não o faz? O vírus da ganância não deixa. Melhoramos muito ou continuamos os mesmos?


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