Alegria

Alegria

Alina Souza

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O sono da noite esmaecida se desfaz quando as cores da rua me acertam. Lembro das minhas próprias misturas — ácidas, cítricas, algumas passando do ponto, outras precisando maturar. Lembro das situações que deixei de lado por simples preguiça de despir a casca, extrair a polpa, devolver as sementes à terra. Também houve momentos que evitei por medo e vergonha de me lambuzar. Hoje penso em não reprimir a fome, a sede, o desejo; consciente que toda intensidade respinga, por vezes mancha. Toda intensidade tem um tempo para ser vivida, amanhã ou depois estará entregue ao apodrecimento e será preciso aguardar novas colheitas, novas feiras, novas possibilidades de experimentar. O agora me acorda, a luz arde no primeiro instante, depois se dissolve, compõe alegria, questionamentos. Por que me deter no passado? Ouso degustar os frutos que outrora julguei baseada tão-somente em formas, matizes, memórias feridas. Neles finco os dentes, ultrapasso a superfície, mastigo, mastigo e, eufórica e lúcida enfim, descubro os melhores sabores.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895