Brandura

Brandura

Poesia em meio à chuva

Alina Souza

Um conto sobre confidências

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As gotas pingavam no instante, diluíam cores e luzes. O dia crescia escorrido, molhado e, no entanto, oferecia algo de cômodo. Dividir o guarda-chuva era um caminho para o reencontro. Tantas vezes pai e filho vivenciaram abismos interpostos. Agora os passos assumiam sincronia, a mão tocava o ombro, os ouvidos procuravam o diálogo, o olhar já não precisava ir tão longe. Bastava estar ali, voltado para aquela proteção compartilhada. Até seria bom se a nebulosidade permanecesse, assim o momento se alargaria na profundidade do afeto. Próximos um do outro, profundamente homens. Os pensamentos brutos enfim fluíam para as sarjetas. O toque — sim, o toque — se revelava prova de coragem. Por que outrora o carinho fora encoberto? Por que a defesa da dureza enquanto a vida se mostrava difusa? Por que tantas renúncias? Agora eles se entregavam aos questionamentos, às confidências, à brandura antes embaçada pelo orgulho de não pedir ajuda, temor de parecer frágil, vergonha do afago. Toda essa carga desnecessária aos poucos se dissolvia nas poças; logo elas estariam secas. E os dois homens, cúmplices de suas fraquezas, seguiam valentes lado a lado.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895