Leo Sekine: "pelo menos 3% da população deveria doar sangue"

Leo Sekine: "pelo menos 3% da população deveria doar sangue"

Jessica Hübler

Leo Sekine, chefe do Serviço de Hemoterapia (Banco de Sangue) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

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O chefe do Serviço de Hemoterapia (Banco de Sangue) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Leo Sekine, fala sobre a importância da doação de sangue e também explica os impactos da pandemia da Covid-19 no estoque e no fluxo de doações. Sekine ainda detalha como se dá o processamento e o uso das bolsas de sangue doadas

Qual a importância da doação de sangue?

A doação de sangue é a única forma que nós temos hoje de conseguir fornecer hemocomponentes, ou seja, aquilo que é produzido a partir do sangue que é doado, para os pacientes. Atualmente, não existe nenhuma outra forma viável de se tratar os pacientes que têm anemia, que têm redução do número de plaquetas ou comprometimento dos fatores de coagulação que não seja a partir do sangue doado. E receber produtos derivados da doação de sangue se faz necessário principalmente em situações muito extremas de saúde, como transplantes de órgãos sólidos, transplante de medula óssea e tratamento de câncer, que usualmente têm como principal complicação a redução da quantidade de sangue, de plaquetas e, eventualmente, o comprometimento dos fatores de coagulação. Então, como não há nenhum substituto para esse fim na medicina e os pacientes que demandam esse tipo de doação são pacientes de grande gravidade e comprometimento de saúde, é importante, significativo, o ato de doar sangue. Pela legislação brasileira, ele só pode ser coletado através da boa vontade e benevolência de pessoas saudáveis.

Como estão os estoques na pandemia? E o fluxo de doação?

Os bancos de sangue, de uma forma geral, sobretudo no Brasil, tiveram que se reinventar durante esse período de um ano e meio que estamos vivendo em pandemia, uma vez que muitas vezes eram foco de aglomerações, muito porque existia, e ainda existe, o costume de pessoas formarem um grupo para poderem ir juntas doar sangue para um familiar, um amigo ou para alguém necessitado que está solicitando via e-mails. Com a necessidade do distanciamento social e, obviamente, de se reduzir aglomerações, os bancos de sangue começaram a trabalhar com agendamento, de forma a distribuir o acesso ao local de coleta de forma homogênea e racional durante o período de funcionamento. Então, nós estamos hoje trabalhando quase que exclusivamente com agendamento de doações, que é um processo bastante simples, realizado pela Internet. Caso a pessoa tenha dificuldade de acessar e utilizar a plataforma de autoagendamento, também disponibilizamos os nossos contatos administrativos para auxiliar. Assim, garantimos a manutenção das regras sanitárias para evitar a transmissão da Covid-19 e conseguimos atender às pessoas de forma mais ágil e mais bem distribuída ao longo do dia. Contudo, a redução dessas “aglomerações boas” acabaram por impactar no número de pessoas atendidas por dia e, obviamente, o receio da comunidade em acessar ambientes hospitalares também acabou reduzindo o número de pessoas doando sangue. Conseguimos, com base em números, desmistificar um pouco a questão do receio das pessoas acessarem as áreas hospitalares. O Banco de Sangue do Hospital de Clínicas está posicionado em uma área absolutamente distante da área assistencial, de forma que esse receio parece infundado nesse momento, felizmente. O impacto da pandemia se deu desde o início dela, em março do ano passado. Tivemos uma redução muito abrupta no início da pandemia, chegando a mais de 50% do nosso contingente de doadores habitual. Uma vez que as pessoas começaram a se sentir mais seguras, com base nas medidas de enfrentamento à Covid-19, esse número passou a ter um aumento novamente, o que possibilitou que conseguíssemos dar conta dos pacientes que necessitam. Agora, com a queda da temperatura, houve novamente queda no número de doadores e, com isso, chegamos mais uma vez a níveis críticos de estoque, comprometendo a assistência e tudo aquilo que possa ser considerado eletivo.

Quais os tipos sanguíneos mais urgentes? Por quê?

Atualmente, temos uma demanda maior de sangue do tipo O+, contudo, todas as tipagens sanguíneas são demandadas, independentemente do estoque. Não é interessante que nós frisemos um ou outro tipo sanguíneo em detrimento dos outros, principalmente porque temos uma parcela da população que não sabe o seu tipo sanguíneo com certeza e também não gostaríamos de desmotivar as pessoas que não sejam de um tipo sanguíneo específico de doar. Uma vez que o exemplo também é um grande motivador para a doação de sangue. Um irmão que vê seu outro irmão fazendo a doação se motiva a doar também. Não queremos restringir isso, uma vez que obviamente há necessidade de todos os grupos de tipos sanguíneos.

Como é o processamento das doações? Depois que a pessoa doa, o que acontece? Quando aquele sangue pode ser utilizado?

Uma vez que a pessoa conclua sua doação de sangue, faça o seu lanche e saia do Banco de Sangue, o sangue é separado em outros produtos, como concentrado de hemácias, de plaquetas, plasma fresco congelado e o criopreciptado. Daí aquela máxima que muitos bancos de sangue repetem, de que uma vida pode salvar até quatro, pois de uma doação podemos produzir quatro hemocomponentes individualizados que podem ser utilizados por quatro pessoas diferentes. Essa separação é feita mediante centrifugação. Esse sangue, uma vez separado em hemocomponentes, vai poder ser utilizado após a conclusão dos testes laboratoriais que vão identificar, obviamente, o grupo sanguíneo do doador, entre outras questões associadas a isso, e também fazer testagem de doença que possa ser transmitida através do sangue. É só após a conclusão dessas avaliações que o sangue poderá ser utilizado por outra pessoa, via de regra entre 24 horas e 48 horas após a doação.

Em média, quantas bolsas são necessárias para uma cirurgia mais complexa, por exemplo? Qual o estoque ideal para o banco de sangue?

As cirurgias possuem portes e complexidades diferentes, para cada tipo teremos uma exigência, uma necessidade de aporte de sangue para fornecer. As mais complexas, como cirurgias vasculares, cardíacas ou os próprios transplantes de órgão sólido ou de medula óssea, por exemplo, vão demandar usualmente uma quantidade bastante significativa de hemocomponentes. Temos cirurgias que demandam mais de 30 doadores para conseguirem ser realizadas. Com relação ao estoque, isso vai ser determinado muito pelo perfil de atendimento da instituição em questão. O Banco de Sangue do Hospital de Clínicas atende um público de pacientes absolutamente complexo e com grande demanda de exigências de intervenções, transplantes, cirurgias de alta complexidade. Então, para nós, o estoque precisa ser de grande robustez, de vulto, caso contrário não conseguiríamos dar conta de realizar tantos procedimentos. Lembrando que nós recebemos pacientes de diversas regiões do Rio Grande do Sul e, eventualmente, de fora do Estado, uma vez que somos um centro, até pelo vínculo com a universidade, de referência para uma série de agravos em saúde.

Quais têm sido os cuidados para a doação? Como uma pessoa interessada precisa fazer para conseguir doar?

Os cuidados para a doação são ainda os usuais e exigidos pela legislação desde antes da pandemia, acrescidos aos cuidados do distanciamento social. Para poder fazer a doação, é necessária a utilização de máscara, deve-se portar documento oficial com foto, se encontrar em bom estado de saúde, realizar agendamento pelo site com pelo menos um dia de antecedência preferencialmente e, obviamente, cumprir o seu horário, chegar com uma antecedência de 20 minutos para poder fazer o cadastro antes do momento da doação de sangue. A pessoa não precisa vir em jejum, embora receba alimentação no Banco de Sangue, pois isso pode inclusive aumentar a possibilidade de um efeito adverso como desmaios, vômitos ou náuseas. Então, é importante que a pessoa venha hidratada, alimentada, com tempo, sem pressa. A doação tende a demorar em torno de uma hora e meia a 2 horas.

Quais os critérios para doação? Quem pode doar?

Os critérios para doação de sangue são determinados pela legislação específica do Ministério da Saúde e da Anvisa. São vários critérios a serem avaliados e preenchidos, a pessoa deve gozar de boa saúde, ter entre 16 e 69 anos 11 meses e 29 dias (entre 16 e 18 anos é preciso apresentar autorização dos pais) e precisa ter mais de 50 quilos. Isso não significa que o doador não possa tomar nenhum tipo de medicamento, mas isso será mérito de avaliação durante a triagem clínica do doador. Existem locais na Internet em que se pode consultar as orientações gerais e, também, se houver dúvida pontual, nossos atendentes podem resolver questões objetivas, como o uso de um medicamento específico, por exemplo. O contato é através do telefone de recepção: (51) 3359-8504.

Como incentivar o aumento das doações?

Esse tem sido o nosso desafio diuturno, desde sempre, uma vez que a sociedade como um todo, principalmente no Brasil, tem um costume de baixa frequência para a doação de sangue. Temos uma estimativa da OMS que prega que pelo menos 3% da população como um todo deva ser doadora de sangue de forma regular e, aqui no Brasil, dados apontam que apenas 1,8% da população doa. Certamente temos na nossa população um contingente muito maior de pessoas que estariam aptas a doar. Tentar abordar esse público é um grande desafio. Tentamos, certamente, mudar o cenário, buscando desmistificar a questões da doação que ainda têm sido um grande medo para as pessoas, como a agulha, o processo, os riscos que isso possa acarretar. A nova geração tem utilizado de meios de comunicação diferentes dos que estávamos acostumados e já temos mecanismos de comunicação diferentes para abordar esse público mais jovem. Tem sido um processo de desenvolvimento e evoluções progressivas e inexoráveis.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895