Leandro Zimerman: "Um atendimento demorado pode custar uma vida"

Leandro Zimerman: "Um atendimento demorado pode custar uma vida"

Jessica Hübler

Leandro Zimerman, médico cardiologista do Hospital Moinhos de Vento

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Há poucos dias, o caso do jogador da Dinamarca, Christian Eriksen, que sofreu uma parada cardíaca em meio a um jogo da Eurocopa e precisou ser ressuscitado por aparelhos no campo de jogo mesmo, não apenas assustou quem assistia ao jogo, como trouxe à tona uma série de perguntas sobre o tema. Afinal, se um atleta, que conta com um bom preparo físico, corre o risco de morte súbita, o que as pessoas podem fazer para minimizar os riscos? Em entrevista ao +Domingo, o médico cardiologista do Hospital Moinhos de Vento Leandro Zimerman fala não apenas sobre casos semelhantes ao do meia dinamarquês, como também acerca da importância de um pronto atendimento e de uma série de medidas que todos podemos adotar no dia a dia para termos mais qualidade de vida. Além disso, Zimerman destaca a importância de realizar exames com frequência e também esclarece dúvidas sobre as sequelas cardíacas de que quem teve a Covid-19.

Qual a importância de um socorro rápido, principalmente para casos como parada cardíaca, como, por exemplo, aconteceu com o jogador dinamarquês Christian Eriksen?

O socorro rápido é extremamente importante no atendimento de um paciente com parada cardíaca e na verdade talvez seja o fator mais importante de todos. Para cada minuto que se perde em reanimar uma pessoa, diminui aproximadamente de 7% a 10% a chance de sobrevida. Se esse paciente é submetido a uma massagem cardíaca, pelo menos de 3% a 5% ainda por minuto de chance acaba diminuindo. Então realmente o fator tempo é fundamental, até por isso o grande significado, a grande importância que damos à questão dos desfibriladores automáticos e semiautomáticos que devem estar disponíveis. Então, sim, o tempo é extremamente importante. Quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de sobrevivência.

O caso do jogador dinamarquês chamou a atenção pelo fato de ser um atleta. Mas as mortes súbitas são situações comuns?

Essas são situações muito incomuns, morte súbita em pessoas na população em geral acontece 1 para 1.000 por ano, mas isso também inclui pessoas doentes. Se formos pegar a faixa etária mais jovem de atletas, os números são bem menores. Os números variam, mas existem trabalhos que mostram uma a cada 9.000 pessoas ao ano e outros que mostram uma a cada 160.000 pessoas ao ano. Ou seja, é realmente incomum a morte súbita em jovens atletas. Um fato que é importante lembrar é que isso acontece mais em homens do que com mulheres e em 90% do tempo são durante o treino ou competição, ou seja, durante atividade física mais extenuante.

Por que um atendimento demorado pode custar uma vida?

Porque quanto mais rápido conseguimos fazer um atendimento e dar o choque que em geral é o atendimento necessário para a maior parte das paradas cardíacas, maior a chance de o coração se recuperar. Se esse coração e esse corpo todo, cérebro inclusive, fica mais tempo sem receber a perfusão de sangue e oxigênio, mais vai ficando difícil que esse coração e esse cérebro se recuperem. Então, efetivamente, quanto mais demorado for esse atendimento, primeiro menores as chances são de uma reanimação com sucesso, de fazer a pessoa sobreviver e não só a questão de sobrevivência, mas sim o estado no qual a pessoa fica. Paradas cardíacas prolongadas podem causar danos cerebrais e, eventualmente mesmo que a pessoa sobreviva, pode sobreviver com algum déficit ou problema.

Quem teve Covid-19 não deve praticar esportes sem consultar um médico? Quais as orientações?

Em relação à infecção por Covid-19, na verdade depende muito do que foi o quadro clínico. Existem recomendações bem claras hoje em dia. Pessoas que tiveram um quadro leve após 10 dias do acometimento estão liberadas para praticar atividades físicas. Por outro lado, pessoas que tiveram um quadro mais prolongado, com situações de dor torácica e palpitações, certamente precisam consultar um médico e fazer uma avaliação adequada para que se tenha certeza de que o vírus não causou nenhum dano cardíaco. Existem danos cardíacos sim causados pelo vírus da Covid-19 e por outros também, mas é importante ressaltar que isso é para uma minoria dos pacientes, a maioria não terá dano cardíaco e poderá retomar suas atividades físicas de forma normal.

Qual a importância de manter os exames de rotina em dia?

É extremamente importante manter os exames de rotina em dia, até mesmo uma avaliação médica não necessariamente com exames complementares, mas uma checagem de pressão arterial, uma revisão do pulso, uma ausculta do coração, conversar sobre eventuais sintomas que são sentidos como palpitações ou dor no peito. Com esse tipo de coisa conseguimos detectar uma série de problemas que poderiam gerar um dano maior, como infarto ou até mesmo parada cardíaca. É importante a gente detectar pressão alta, algumas arritmias, tudo isso faz parte dos exames de rotina e, com isso, podemos antecipar tratamentos e prevenir problemas maiores que poderiam acontecer eventualmente no futuro.

Quais os riscos para pessoas sedentárias? Como reverter o quadro e assim minimizar riscos de problemas cardíacos?

As pessoas sedentárias têm mais riscos, não existe nenhuma dúvida sobre isso. Quando se faz uma atividade física de leve a moderada, isso vai diminuindo risco na medida em que melhoramos a nossa capacidade física. Então, aquela pessoa que é completamente sedentária tem mais chance de fazer várias arritmias: fibrilação atrial, que pode formar coágulos e gerar derrame, pode fazer mais arritmias graves incluindo paradas cardíacas que vemos porque aumenta o risco de infarto, por exemplo. O sedentário deve fazer uma avaliação prévia, logicamente, mas esse tipo de comportamento deve ser corrigido. Para reverter o quadro, é possível iniciar uma atividade física como caminhada, algum tipo de musculação, são atividades que diminuem os riscos de eventos cardiovasculares e também diminuem os riscos de outras várias complicações. Então certamente o sedentário deve, de alguma forma, melhorar a sua condição física.

A pandemia da Covid-19 levantou ainda mais os debates sobre a importância de uma vida saudável. Neste sentido, quais são os principais cuidados para a população em geral? Como garantir a tão esperada qualidade de vida?

A pandemia da Covid-19 realmente está sendo um grande problema, muitas pessoas estão pegando doenças de forma grave, ficando com sequelas, mas sim é importante lembrar que esse tipo de coisa traz à tona a discussão sobre saúde e se tem alguma coisa boa que podemos tirar disso, é realmente a preocupação com a saúde de forma geral. As pessoas estão debatendo e se preocupando mais. E por conta disso temos sim a oportunidade de insistir em uma série de cuidados. Existem vários deles que todos nós sabemos que devemos fazer e acabamos menosprezando: precisamos estar em um peso adequado, precisamos fazer atividades físicas regulares, não devemos fumar, devemos estar com os exames em dia, fazer avaliações médicas com frequência, se tiver alguma patologia, precisa estar bem controlada, então essa é a melhor forma de garantir a qualidade de vida e de garantir que o risco de um problema mais sério como um infarto, um derrame ou uma parada cardíaca seja cada vez menor. Então, se tem alguma lição que podemos tirar disso tudo e que precisamos insistir é que existe sim uma série de medidas que sabemos que devemos fazer para melhorar a saúde e que infelizmente muitas vezes deixamos de lado, mas é muito importante que a gente relembre: tome cuidado com a saúde porque existem vários eventos que podem ser realmente graves e podem ser evitados com medidas extremamente simples.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895