Daniel Barros: "A saúde mental é negligenciada sobretudo por preconceito"

Daniel Barros: "A saúde mental é negligenciada sobretudo por preconceito"

Jessica Hübler

Daniel Barros, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e médico do Hospital das Clínicas da FMUSP.

publicidade

Na pandemia, o tema da saúde mental ganhou destaque e, conforme o médico Daniel Barros, deve continuar recebendo atenção quando a crise sanitária passar. Professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e médico do Hospital das Clínicas da FMUSP, ele participa, nos dias 21, 22 e 23 de junho, do Sesi Conecta Saúde, evento on-line e gratuito voltado para a gestão da saúde no trabalho em empresas.

Qual deve ser o principal impacto na saúde mental pós-pandemia?

O principal impacto na saúde mental no pós-pandemia é a gente ter mais atenção para a saúde mental, isso é uma coisa que felizmente tem acontecido, mais pessoas têm prestado atenção, têm se voltado para o seu estado emocional, para a sua saúde mental, isso está sendo mais falado, mais repercutido. Então, talvez finalmente tenha caído a ficha para todos sobre a importância desse tópico, que já era extremamente relevante, mas que era tão negligenciado.

De que forma os impactos devem ser avaliados por profissionais da psicologia e da psiquiatria?

Os impactos na saúde mesmo, de pessoas doentes, a gente vai ver, por exemplo, nas pessoas que tiveram a Covid-19 ou então naquelas que precisaram lidar com mortes, desenvolvendo mais quadros depressivos e possivelmente mais quadros de estresse pós-traumático, porque isso a gente já vê em outras epidemias. Então, a gente precisa estar preparado para dar continência para as pessoas que adoecerem. O tempo todo há pessoas adoecendo e desenvolvendo quadros depressivos e ansiosos, isso não vai parar na pandemia e nem depois, então precisamos estar atentos. Se houver esse aumento de demanda, com mais pessoas prestando atenção nisso, aí a gente precisa estar preparado mesmo para acolher. A sociedade precisa formar psicólogos, psiquiatras, preparar clínicos gerais para prestarem um bom atendimento. Enfim, acho que é uma questão de saúde geral mesmo.

Como desenvolver um entendimento sobre as consequências na saúde mental após o período da pandemia?

Não estamos vivendo um aumento de doenças mentais no momento. Todos os estudos que formalmente avaliam a taxa de pessoas, a proporção de pessoas nas sociedades, não têm se modificado, nem no Brasil, nem em países da Europa. Várias pesquisas realizadas ao redor do mundo têm mostrado que, pelo menos até aqui, não houve um aumento na proporção de pessoas doentes. Às vezes isso gera um estranhamento, as pessoas se perguntam como isso é possível, tem tanto movimento nos consultórios, salas de espera lotadas, mas é justamente porque mais pessoas estão prestando atenção nisso, mais pessoas estão buscando atendimento. Nós já éramos, no Brasil, o país com maior prevalência de transtorno de ansiedade no mundo e a gente não era o país que mais tratava ansiedade no mundo. Então, a gente tem um gap muito grande e, com as pessoas prestando mais atenção nisso. Elas vão buscar tratamento e isso gera essa sensação de aumento.

Muitos especialistas falam que viveremos uma segunda pandemia após o controle da Covid-19, que seria a dos transtornos mentais. Isso é verdadeiro? Por que tem sido falado?

A gente precisa diferenciar a reação negativa do nosso entorno de um adoecimento. As pessoas vão experimentar mais estresse, mais raiva, mais medo, mais tristeza, mais luto, isso não é necessariamente patológico. Durante muito tempo, a psiquiatria foi criticada como se estivesse em uma posição de estar “patologizando” a vida. Agora a pessoa não pode mais ficar de luto que já querem chamar de doença, vivemos um momento contrário. As pessoas estão mal, emocionalmente abaladas, a gente fala, então, que não são doenças e as pessoas questionam: como isso não é doença? Não é, é um sofrimento normal, faz parte da vida e a gente só vai intervir, só vai tratar, quando realmente isso sair do controle, se perpetuar em um tempo e não melhora com o tempo ou, então, se for em uma intensidade maior do que o esperado para determinada situação.

Há estudos analisando as possíveis consequências da pandemia na saúde mental da população? Quais seriam os principais motivos para essas complicações?

O que causa tudo isso à nossa volta são exatamente todas as consequências da pandemia. O medo da contaminação, a pessoa que é contaminada e o medo de morrer, a insegurança econômica, o medo do desemprego ou realmente a perda financeira, com as consequências na vida da pessoa, o luto, tudo isso vai se somando para levar a um sofrimento que não se reflete, ainda, em um aumento das doenças mentais.

Como as pessoas podem se preparar, desde agora, para minimizar os efeitos negativos da pandemia sobre a saúde mental?

Precisamos fazer o que já temos feito, levar informação, realizar debates, divulgação do assunto, com psiquiatras se manifestando, a mídia repercutindo esses assuntos. Quanto mais falarmos deles, mais as pessoas terão consciência sobre o que está acontecendo e irão buscar, quando tiverem dúvida, informações sobre seu estado emocional. A pessoa não tem certeza sobre quando está doente ou não. Ela busca uma atenção quando está na dúvida sobre aquela situação, querendo saber se é ou não uma doença e aí são feitas avaliações específicas. Sempre digo que, na dúvida, é melhor procurar, mesmo não tendo nada, do que ter alguma coisa e não procurar.

De modo geral, como diferenciar um sofrimento normal de uma situação mais complexa, como um quadro de adoecimento mental?

A melhor maneira de diferenciar um sofrimento normal de um momento mais patológico é quando o sofrimento se perpetua no tempo. Emoções negativas vêm e vão, quando elas vêm e ficam, se perpetuam como um sofrimento que acaba prejudicando a vida da pessoa e ela não consegue melhorar mesmo percebendo isso. Aí já entramos na esfera da patologia. Depressão, ansiedade e alcoolismo talvez sejam os problemas mais comuns que vemos no Brasil.

Por que a saúde mental vinha sendo negligenciada? O que mais precisamos fazer para que esse assunto continue sendo levado a sério após a pandemia?

A saúde mental é negligenciada sobretudo por preconceito. Ainda há muito estigma, existe muito estereótipo e preconceito com relação à saúde mental. A principal consequência é que as pessoas deixam de se tratar porque têm vergonha, acham que não devem assumir uma coisa dessas, o que acaba sendo prejudicial, tornando ainda mais graves os quadros patológicos.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895