Cordeiros na janela

Cordeiros na janela

Paulo Mendes

Cordeiros foram vistos na janela do bolicho

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Caminho pelas ruas encharcadas da Expointer observando os bichos, as gentes, os sonhos, a tradição e a imaginação que se estilhaça no ar molhado porque é sólida. É um vapor, é uma formiga atravessada por uma adaga em brasa. Fico a olhar por um tempo maior as ovelhas de todas as raças e seus cordeiros de branco velo, e os escuros, agora chamados de “naturalmente coloridos”. Apeia-se à memória aquele setembro louco da Vila Rica, quando as chuvas que se iniciaram em agosto adentraram a primavera, sem trégua, tornando tudo líquido, escorregadio. Passageiro. Da velha casa do outro lado da esquina Maboni, abandonada há tantos anos, coberta por mato e hera, surgiu um guri e sua avó, vestida de luto, com um pano na cabeça. O guri era silencioso. Depois descobrimos que a velha era benzedeira e o guri pouco falava, mas escrevia uns garranchos com tocos de velhos lápis de cera em tudo o que encontrava.

Uma tarde chuvosa vieram ao bolicho e a senhora comprou querosene, fumo em corda, açúcar, cachaça e caramelos. Antes de saírem, o guri tirou do bolso um lápis e escreveu algo na parte frontal do balcão. Quando se afastaram, abri a portinhola que havia ao lado das tulhas e li: “Carrego o vento nos bolsos e um lagarto duro de frio. Olhe para dentro de ti e verás o vazio...” Confesso que fiquei perturbado com aquilo. Depois começaram a dizer que o guri era desvairado, que lia o tempo todo e escrevia coisas sem sentido, sem propósito, que rabiscava, deixava mensagens em códigos nas árvores. Lembro que o balcão ficou tão cheio de dizeres que esses nem cabiam mais em lugar nenhum. “Tenho um passarinho na barriga”, “Vi um cavalo escouceando o orvalho” e uma que me intrigou bastante: “Naquela janela choram três cordeiros...”. Imediatamente olhei para a janela e não vi cordeiro nenhum, muito menos chorando. Só vi a estrada real enlameada, os cinamomos floridos e os ciprestes tristes com os braços desanimados e pendentes.

Com o passar dos meses o menino foi escrevendo mais coisas estranhas. A avó, aturdida pelas parábolas, dizeres, metáforas e certos causos inventados, levou-o ao doutor que vaticinou: não era nada demais, tratava-se de um poeta precoce, um cronista. “Cronista?”, perguntou a mãe, apavorada, como tratar esta doença tão daninha para o guri desamparado, que só tinha ela no mundo, que tipo de remédio tomar? “Não se apoquente, não, dona Maria, ele vai causar espanto, será um solitário, mas muitos vão amá-lo, pois vai dizer e escrever coisas que apenas os anjos entendem.” No ano seguinte sumiram, avó e neto se foram mundo afora semeando versos, textos incompreensíveis, tangendo frases e emborcando verdades.

Percebi, mais tarde, que o dom do guri era a palavra. Com ela podemos ter tudo não se tendo nada. Podemos ser ricos, pobres, brancos, pretos, índios, amarelos, brasileiros, argentinos, peruanos, ser o que quisermos, fazer qualquer coisa, conhecer o mundo inteiro sem sair do lugar. Teve um dia que olhei para a janela e vi os cordeiros chorando, depois gargalhando. Ao longe vi uma tropilha de gateados que ia para uma linda estância que havíamos comprado. Sorri, um sabiá cantou dentro da minha barriga. A vida pode ser doce e bela quando se aprende a escrever e a sonhar. Acabei, também, virando cronista...


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Correio do Povo
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