Saúde

Audiência pública discute desafios na avaliação biopsicossocial para pessoas com fibromialgia

Doença de desregulação do Sistema Nervoso Central causa dor generalizada no corpo, fadiga, distúrbios do sono, entre outros sintomas

Audiência Pública sobre a Lei da Fibromialgia na Assembleia Legislativa
Audiência Pública sobre a Lei da Fibromialgia na Assembleia Legislativa Foto : Pedro Piegas

Uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) tratou, nesta segunda-feira, sobre os desafios para a implementação da Lei nº 15.176/2025, sancionada em 23 de julho de 2025 e entra em vigência a partir de janeiro de 2026, que garante a possibilidade da doença ser equiparada a uma deficiência para pessoas com fibromialgia. Com a Lei, pessoas poderão buscar avaliação biopsicossocial para pedir reconhecimento como pessoa com deficiência e ter acesso a benefícios da LBI (Lei Brasileira de Inclusão). A doença trata-se de uma desregulação do Sistema Nervoso Central que causa dor generalizada no corpo, fadiga, distúrbios do sono e outros sintomas como alterações de memória, concentração, ansiedade e depressão.

A audiência foi proposta pelo deputado estadual Leonel Radde (PT), presidente da Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado. A discussão iniciou com representantes do coletivo Fibromialgia Luta por Direito, Ana Paula Marques e Ivanisa Fagundes Bonatto. Ivanisa tratou da importância de investir na avaliação biopsicossocial, método utilizado para analisar as condições de saúde e funcionalidade de uma pessoa. “A classificação da deficiência não se resume a rótulos médicos, mas leva em conta tipos, graus, funcionalidades e barreiras sociais”, afirmou.

“Nossa síndrome é invisível. Quem olha para você, diz que não tem nada, e assim nos classificam os peritos do INSS”, completa. Ela lembrou que, na Bahia, já há um projeto piloto implementado para a avaliação biopsicossocial. Mas aqui, as leis estaduais ainda não incluem o método. “A lei vai entrar em vigor dia 23 de janeiro de 2026. Mas estamos no limbo. Se a gente quiser requerer um direito federal, fazendo uma aposentadoria por deficiência, talvez a gente consiga uma avaliação lá no INSS.Mas não vai ser igual a uma avaliação biopsicossocial como manda a lei”, afirmou.

Ana Paula Marques lembra que o Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos representando a saúde como um direito universal, mas que ainda passa por entraves. “Reconheço os avanços e as vitórias. Agradeço por termos esse sistema público gratuito e universal. Mas, como sabemos, a vida de quem depende totalmente do SUS enfrenta desafios”. Marques pontuou que, além da Lei 15.176 de 2025, há a lei já sancionada 14.705 de 2023, que trata de acesso a atendimento multiprofissional e inclui atendimento de medicina para pessoas com fibromialgia e dores crônicas, e que prevê capacitação de profissionais.

Doença ainda é desconhecida

Para ela, é essencial investir em capacitação na área da saúde para a doença, que ainda é desconhecida por muitos. Essa capacitação de profissionais é muito importante. A fibromialgia é uma deficiência invisível. Ela é uma síndrome de vários sintomas e trazem a pessoa a ficar depressiva, ficar com ansiedade, ter problemas psicológicos, por causa do sofrimento. É algo que tenha que ter um atendimento diferenciado.

“A gente chega às vezes em uma UBS e eles não têm conhecimento dessa síndrome. É um tratamento que tem que ser diferenciado, os profissionais devem ser capacitados para entender o que o paciente necessita”, defende. Marques também acrescenta que os medicamentos mais usados no tratamento da fibromialgia – pregabalina e a duloxetina – não estão disponíveis gratuitamente em farmácias. “Os pacientes têm que comprar do próprio bolso, isso onera muitas pessoas com fibromialgia e muitas pessoas estão afastadas do mercado de trabalho justamente por causa dos sintomas debilitantes”, complementa.

No Rio Grande do Sul, o deputado Leonel Radde propõe uma política estadual de fornecimento gratuito de medicamentos à base de canabidiol pelo SUS. Para Marques, o medicamento pode ser transformador na vida de quem sofre diariamente com dores incapacitantes. “Ele vem mostrando excelência em muitos resultados no tratamento da dor crônica. Ele pode devolver a qualidade de vida de milhares de pessoas, e reduzindo a internação e agravamento dos sintomas e o sofrimento”, afirmou.

Laila Vasconcelos de Oliveira Vilella, auditora fiscal do Ministério do Trabalho e que trabalha há quase duas décadas de trabalho na construção de instrumentos para avaliação biopsicossocial, defendeu que a avaliação da deficiência deve ser coerente com o que diz a convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, incorporado na Constituição Federal. “A gente saiu daquele conceito de que alguns diagnósticos e alterações corporais eram deficiência para entendimento de que a deficiência resulta de uma interação entre o corpo da pessoa com os impedimentos nas funções estruturais, mas a interação desse corpo com as barreiras ambientais, no contexto de onde a pessoa vive”, diz. Vilella também pontuou os avanços na proposta de implementação da avaliação pelo Índice de Funcionalidade Brasileiro Modificado (IFBrM), que faz parte do projeto piloto na Bahia.

O deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) destacou a necessidade da sociedade e do poder público para tratar pessoas com fibromialgia com dignidade, e ressaltou o papel democrático do movimento tem cumprido para o estado. “O principal desafio que a gente tem nesse momento é pensar de que maneira o Rio Grande do Sul vai conseguir equalizar as suas normativas legislações como que está prestes a ser implementado a nível nacional”, diz. O deputado defendeu a implementação de um grupo de trabalho pela SES para tratar especificamente da avaliação biopsicossocial.

Desafios para o Estado

Marcia Falcão, representante do departamento de regulação estadual da SES, pontuou que a Saúde no Rio Grande do Sul atua pelo Sistema de Gerenciamento de Consultas (Gercon) de tratamento da dor, e que, no estado, há quatro serviços que atendem a especialidade no estado - no Hospital Cristo Redentor, Clínicas, o Centro de Especialidade Municipal e o Hospital de Santa Maria.

Falcão também destacou o objetivo de expandir os ambulatórios para tratamento da dor, e pontuou que o principal desafio está no acesso à atenção primária por conta do empoderamento dos médicos e apropriação do tema. Ela defendeu que a abordagem precisa ser multifatorial. “Temos uma luta antiga e árdua que é realmente expandir a oferta”, destacou. Também defendeu que publicações recentes de pesquisadores no assunto podem contribuir para protocolos entre profissionais da área da saúde.