Eleições municipais de 2024 serão termômetro para avaliação do governo federal

Eleições municipais de 2024 serão termômetro para avaliação do governo federal

A influência do que ocorre em Brasília sobre pleito também impacta a escolha dos integrantes dos poderes Executivo e Legislativo nas cidades

Flavia Bemfica

Movimentos de Lula aliados, por um lado, e de representantes do bolsonarismo, por outro, vão definir o grau de polarização do pleito de 2024

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A um ano das eleições municipais de 2024, o pleito já começou a movimentar os partidos políticos na busca por melhores nomes ou alianças políticas. Dois anos após as eleições gerais que determinaram a presidência da República, o momento também será um indicativo para as gestões. A professora Marta Mendes da Rocha, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (Ufjf), lembra também que os resultados das escolhas de prefeitos, vices e vereadores servem de termômetro sobre a avaliação da população a respeito do governo federal. A influência do que ocorre em Brasília sobre as eleições municipais é um dos fatores mais convencionais quando das projeções sobre o que impacta a escolha dos integrantes dos poderes Executivo e Legislativo nas cidades. E, no próximo ano, de acordo com os analistas, isto não deverá ser diferente.

O PT, partido do presidente Lula, por exemplo, já começou a colocar em curso em capitais, regiões metropolitanas, grandes e médios centros urbanos, a estratégia de atrelar anúncios e medidas positivas do governo federal ao lançamento de nomes conhecidos da população (sejam eles do PT ou de siglas aliadas) na tentativa de recuperar um espaço que perdeu nos comandos locais na última década.

Quanto à economia, se estiver bem em 2024, gera uma predisposição para que uma maior fatia de candidatos se coloque como alinhada do governo federal (além dos petistas e dos federados PCdoB e PV, também uma série de aliados, de diferentes siglas), com o objetivo de que a ação resulte em benefício nas urnas. Caso contrário, crescem os oposicionistas declarados e os ‘neutros’. “Este é outro fator clássico que vai se manter em 2024. Porque há uma forte expectativa em relação ao desenvolvimento econômico, à queda da inflação e à melhoria do custo de vida. É um grande anseio, um grande desejo da população”, confirma Elis Radmann, diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO).

O peso dos bons indicadores econômicos, contudo, precisa ser mensurado caso a caso. Em linhas gerais, ele varia de acordo com o tamanho e a urbanização das cidades, o que nacionaliza mais ou menos as corridas municipais. É um outro comportamento esperado do eleitorado e que deve se repetir no ano que vem. “A economia impacta mais o humor do eleitorado nas capitais e centros de médio e grande porte. Nas menores, isto acontece também, claro, mas é uma cadeia mais longa. Ali, todo mundo se conhece, há dinâmicas bem mais específicas, as vezes é a família A brigando com a família B, a estrutura partidária é menos clara e as siglas que os grupos usam são o que menos importa. Quem mora na cidade, entende”, elenca Glauco Peres da Silva, professor do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e colaborador da International Political Science Association (IPSA). 

Nacionalmente, segundo Peres, o desenho hoje posto sobre 2024 aponta para o estabelecimento de três forças norteando os movimentos nos grandes centros: um candidato claramente alinhado ao governo federal, um candidato que represente o conjunto que segue se identificando com o bolsonarismo e uma terceira força que se apresente como alternativa mais ao centro ou ao discurso de polarização.

“É o que vamos ver em São Paulo, onde já estão postos Guilherme Boulos (PSol), o atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), e a deputada federal Tabata Amaral (PSB). E que pode acontecer em Porto Alegre. Em alguns estados, teremos ainda uma outra influência: os movimentos dos governadores conforme suas intenções eleitorais em 2026. De novo, isto pode ocorrer, por exemplo, no RS, onde são conhecidas as pretensões eleitorais do governador para 2026”, projeta o professor. “No RS, o governador tem no momento credibilidade para interferir nas eleições municipais. Vai depender de seu interesse em fazer esse movimento, porque, em termos de agenda, ele possui um limite, por conta de sua ampla coalizão política atual. Então, eu diria que pode fazer este movimento de influência sobre as corridas locais, mas que a manutenção da neutralidade é o que seria o mais estratégico para manter a coalizão”, completa Elis Radmann.

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À esquerda e à direita, conforme os analistas, a um ano do pleito duas incógnitas ainda precisam ser equacionadas. A primeira trata da participação efetiva de Lula nas próximas disputas municipais. “Nos dois mandatos anteriores, o Lula foi um cabo eleitoral importante para eleger prefeitos aliados pelo Brasil. As duas questões que seguem em aberto em relação ao presidente são: Ele vai se engajar nos pleitos nas cidades como fez no passado? E, caso se engaje, vai ter a importância que já teve?”, questiona Marta da Rocha.

A segunda grande dúvida diz respeito ao desempenho dos candidatos associados à uma direita mais radical, bloco que ganhou força no país no passado recente, mas que, com a desidratação da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inelegível e sob a ameaça de novos processos, passa por ajustes. “Há uma reconfiguração. Parte dos antes aliados de Bolsonaro modulou o discurso, parte se movimentou em direção ao novo governo, parte disputa o espaço que ele deixou, e parte segue tentando manter o bloco aglutinado. Mas, para um político local, não é fácil sobreviver só com as pautas de cunho moral, de costumes, as pessoas querem soluções de problemas reais”, avalia.

Os movimentos de Lula e seus aliados, por um lado, e de representantes do bolsonarismo, por outro, vão definir, por fim, o grau de polarização do pleito de 2024. Os analistas concordam que o enfraquecimento do PSDB (que ao longo de duas décadas polarizou as disputas nacionais com o PT, com os respectivos desdobramentos em estados e municípios), gerou uma grande fragmentação, abrindo espaço para várias outras forças.

“Os políticos de esquerda, além de suas pautas sociais históricas, devem se debruçar sobre os aspectos técnicos e de modernização. Os políticos de centro e direita, que já se atentaram mais às questões de gestão, precisam se voltar também à pauta da participação, com canais de comunicação menos autocráticos. Há desafios diferentes para os dois lados”, adianta a professora Luciana Papi. “Hoje o quadro é bem mais plural e diverso. O cenário ficou mais confuso. As eleições de 2024 vão, em grande medida, tratar disso”, conclui Marta da Rocha.

 


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