Meliponicultura, uma riqueza em descoberta

Meliponicultura, uma riqueza em descoberta

O Rio Grande do Sul tem identificadas mais de 20 variedades de melíponas, as abelhas-sem-ferrão, que produzem um mel com menos açúcar e maior teor de umidade e muito valorizado no mercado, com preços que podem variar de R$ 80 a R$ 300 o quilo

Patrícia Feiten

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Quando se pensa em abelhas, a imagem formada é geralmente a da Apis mellifera, o bichinho de corpo listrado que, por conta das picadas dolorosas, já inspirou uma coleção de filmes de terror. Resultado do cruzamento entre espécies africanas e europeias, ela foi introduzida no Brasil em torno de 1850 e se tornou o tipo reinante no território nacional. O país, no entanto, é uma das regiões do planeta com o maior número de espécies de abelhas nativas, sem ferrão, que, além de não representar perigo para os humanos, são fortes aliadas da preservação ambiental. São cerca de 250 variedades, das quais mais de 20 foram identificadas no Rio Grande do Sul. Objeto da chamada meliponicultura, esses insetos curiosos despertam cada vez mais interesse de produtores e pesquisadores.

O presidente da Federação das Associações da Meliponicultura do Rio Grande do Sul (Femers), Nelson Angnes, diz que o Estado vem descobrindo aos poucos a enorme riqueza representada pelas abelhas-sem-ferrão e isso vem impulsionando a organização dos produtores em associações. “Nossa federação foi fundada em junho do ano passado, tínhamos na época cinco associações de meliponicultores. Hoje, temos 15”, afirma. Um dos fatores por trás desse crescimento, segundo o dirigente, é a facilidade de manejo dos enxames. Ao contrário das abelhas que picam, as melíponas não exigem uso de equipamentos de proteção e podem ser criadas na zona urbana, no quintal de uma casa. 

Considerado mais saudável, por conter menos açúcar e maior teor de umidade que o de Apis, o mel que elas fabricam também é muito cobiçado, com preços que vão de R$ 80 a R$ 300 o quilo. Isso porque as colmeias de abelhas nativas reúnem menos indivíduos e produzem quantidades inferiores às das popularmente conhecidas – enquanto as colônias de abelhas africanizadas somam de 60 mil a 120 mil insetos, as brasileirinhas se associam em famílias de no máximo 5 mil. “De uma colmeia, tu tiras de 100 ml até três ou quatro quilos de mel apenas”, compara Angnes. Ele projeta que a meliponicultura deve ganhar impulso no Estado com a regulamentação da Lei 14.763, aprovada em 2015. O texto estabelece as bases para a criação, o comércio e o transporte das abelhas-sem-ferrão.

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Residente em Nova Petrópolis, o consultor Leandro Voltz é um dos que se renderam ao fascínio dos insetos amistosos com DNA verde-amarelo. Ele adquiriu as primeiras colmeias em 2008 e hoje soma cerca de 480 colônias de melíponas de 18 espécies, como jataí, tubuna, mandaçaia e guaraipo. Sua propriedade, o Meliponário Voltz, atua na venda de enxames para produtores de todas as partes do Rio Grande do Sul. “Anuncio nos grupos (de Whatsapp) a rota que vou fazer e faço um ‘tour’. Passo pela Região Metropolitana, por Camaquã, Pelotas”, explica. A clientela é bem variada – inclui desde interessados em produzir mel para consumo próprio até agricultores que usam os lotes comprados para polinizar plantações e aumentar a produção de frutas vermelhas.

 O meliponicultor Leandro Voltz, com a esposa Márcia Rosália Birk, dedica-se à produção e venda de enxames de abelhas-sem-ferrão, que podem custar até R$ 800, dependendo do manejo exigido e da dificuldade para desenvolver as colmeias matrizes | Foto: Scheila Carolina Voltz / Divulgação / CP.

Segundo Voltz, o meliponário só começou a proporcionar rentabilidade no ano passado, cerca de sete anos após o investimento inicial. O preço de um enxame de abelhas nativas pode variar de R$ 100 a R$ 800, dependendo do manejo exigido e do tempo necessário para desenvolver as colmeias matrizes. Uma colônia da espécie guaraipo, por exemplo, custa em torno de R$ 600. “Tu fazes uma criação por ano, é difícil desenvolver. (No apiário), tu tens de manter um bom giro para teres o retorno”, afirma o produtor, que tem percebido um aumento da procura pelas abelhas nos últimos três anos. Ele também já comercializa em torno de 40% do mel elaborado pelas abelhas-sem-ferrão, em parceria com associações regionais de produtores. Na safra passada, suas famílias de mandaçaias entregaram 58 quilos do alimento, em uma média de dois a três quilos por colônia. “Futuramente, vou focar mais no mel, porque a procura é muito grande”, planeja Voltz. 

Tão ou mais importante do que o saboroso alimento coletado dos favos, porém, é o serviço ecológico que as abelhas-sem-ferrão prestam. De flor em flor, elas transportam o pólen que garante a formação de frutos e sementes e o nascimento de novas plantas. Segundo a bióloga Sidia Witter, do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA) da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), as melíponas (ou meliponíneos) já foram testadas como agentes polinizadores em 51 culturas no Brasil, como tomate, maçã, berinjela, morango e pimentão, tanto em ambientes abertos quanto protegidos (estufas), e os resultados foram positivos. “Com a polinização, tu tens a produção de alimentos e também a manutenção das florestas, da vegetação nativa”, destaca Sidia.

Como as abelhas nativas fazem seus ninhos em ocos de árvores nas regiões tropicais e subtropicais, o desmatamento gerou preocupação com relação à sua sobrevivência, explica a bióloga. Desde 2021, ela coordena uma pesquisa focada nas guaraipos, encontradas na floresta de araucárias dos Campos de Cima da Serra. O estudo, realizado em uma propriedade no município de Cambará do Sul em conjunto com pesquisadores de outras instituições, descobriu que a espécie também produz o chamado mel branco, variedade monofloral elaborada com o pólen da planta carne-de-vaca, predominante na região. “Nossa ideia é conservar as árvores em que as abelhas fazem os ninhos, porque assim temos a abelha conservada e ela vai prestar o serviço de polinização”, diz a pesquisadora.

Ao promover a meliponicultura sustentável, o projeto busca também diversificar as atividades econômicas das pequenas propriedades. “Nós teríamos um mel diferenciado, produzido por uma abelha nativa da região, que pode agregar muita renda para os pequenos produtores”, destaca Sídia. A pesquisadora acredita que a criação das abelhas-sem-ferrão em suas áreas de ocorrência natural abre ainda perspectivas para projetos de pagamento por serviços ambientais (PSA). O modelo, que recompensa produtores pela preservação dos recursos naturais, está previsto na Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais.

Abelha guaraipo é encontrada em regiões tropicais e subtropicais. Foto: Fernando Kluwe dias / Seapi / Divulgação / CP.


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